quarta-feira, 4 de novembro de 2020

A VIDA NO TERREIRO








Depois de muito tempo, pensando e repensando minha própria vida dentro do Terreiro, resolvi voltar a escrever. Escrevo porque há mensagens que sufocam. Há informações que são necessárias, mas acima de tudo, porque há muitas pessoas sem noção. 

De que é feita a vida dentro dos terreiros? 

A conservação da fé no ambiente afrocentrado, afrodescendente e afrorreligioso está intimamente ligado com trabalho. O desenvolvimento da fé se dá pelo trabalho, pela entrega, pelo serviço prestado ao santo. Porém, isso se dá com serviço prestado também às pessoas. 

Uma função religiosa (período de atividade ritual) é para o santo, mas também é para alguém, pra um irmão (secundariamente). 

O espaço religioso é, em suma, local de convivência. Convivência com o diferente. Convivência com pessoas totalmente diferentes, seja em identidade, hábito, formas de falar e levar a vida... Etc. E isso, por si só, já é bastante complicado. 

Nos momentos de nossas dores, nos voltamos ao sagrado e às pessoas que intermediam nossa fé com o sagrado, para que nos ajudem a solucionar nossas problemáticas. E vemos nossas adversidades como urgentes/emergentes, que precisam de resolução o mais rápido que o sagrado puder ajudar. Respeitamos nossas próprias dores e limites. 

Infelizmente, não é com o mesmo fervor que a maioria das pessoas veem as dores alheias. Assim, não conseguem desenvolver o senso de empatia e se colocar em serviço dedicado para solução da dor do outro. Hipocrisia. 

Quando um irmão se obrigaciona, também nos obrigacionamos porque isso significa Ẹgbẹ. Senso de coletividade, de sociedade. Seja um ẹbọ, um bori ou um Àjọ̀dún.

Muito da harmonia de um Terreiro se perde porque as pessoas não conseguem desenvolver seu próprio papel dentro da comunidade. Não conseguem pensar no sagrado. Anulando um pouco do egoísmo, egocentrismo, da vaidade. Para amar Òrìṣà é preciso amar pessoas. É preciso permitir que façam convívio e é preciso deixar o Aṣẹ (a força mística) fazer o seu trabalho exclusivo ou inclusivo para que as coisas ocorram de acordo com o desejo do Sagrado. 

'Pertencer' e 'ser' significam se anular e deixar as coisas fluírem. É preciso muita sobriedade para deixar o sagrado agir. Não cremos numa força superior egoísta, superficial e individualista. Mas numa força que preza, ama e forma coletividade. Ainda que haja percalços no caminho.


É preciso ser muito bom 'vodunsy' pra deixar o Aṣẹ acontecer... 


Boa noite!

Abrindo Temporada de novos textos!

Bàbálòrìṣà Tatto de Òṣóòsì

domingo, 24 de junho de 2018

VAMOS ARRUMAR A CASA?


UMA ANÁLISE ANTROPOLÓGICA

Ọ̀rọ̀ wèrè ló máa ńyàtọ̀, ti ọlọ́gbọ́n máa ńbá ara wọn mu ni.
As palavras dos tolos geram divergência, as palavras dos sábios geram união
(Provérbio Iorubá)


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(Imagem retirada do blog:Dinomar Miranda)


     Estamos vivendo tempos caóticos. Isso todos sabemos. Também ouvimos todos os dias que os candomblés (Os bons, é claro!) estão acabando e as diversas fontes de sabedoria estão se esgotando. Tradição oral em tempos de Google requer uma adaptação, porém essa adaptação não pode prejudicar os preceitos, dogmas, doutrinas e quaisquer outros segredos da Tradição de Matriz Africana, no Brasil.
      Todos os dias a nossa religião morre um pouco. Mas, somos mais que uma religião, somos cultura, somos identidade, somos uma totalidade gerada pelos diversos processos históricos no Brasil e no Mundo. E, claro, somos resultado dos desejos dos Céus para o planeta. Qual seja o nome: Destino, Linha Histórica, Causa e Efeito.
      Viveremos ainda tempos de muitas perseguições, tão mais intensas do que as que já vivemos há tempos. O Terrorismo Cristão tem invadido nossas casas e identidades por todos os lados, entrando pelas janelas, portas, frestas e quaisquer outros espaços que consigam dominar, como bactérias e vírus num corpo sem resistência.
            Isso mesmo! Somos um corpo sem muita resistência. 
   
     E, não dá pra aceitar esse problema imunológico que nossas Tradições vive, porque historicamente, culturalmente, somos uma Religião e de resistência. E, como tal, os problemas de intolerância que sofremos, também são problemas alinhavados com o racismo. Entretanto, isso quase todos nós também sabemos. Aqui mesmo já escrevi muito sobre esse tema. A questão agora é entender como superar os vilipêndios constantes que sofremos.

     PRECISAMOS ARRUMAR A CASA. Didaticamente, imaginando que o Candomblé seja uma casa, sabemos que não podemos exigir dos vizinhos organização de suas casas, ou mesmo compreensão, quando não a temos entre nós. Temos de nos respaldar nas regras de nossas tradições. E tempos de mudança certamente também são tempos de dor. 
   
     Nossos Terreiros precisam seguir as regras de nossas Matrizes, óbvio que regras dos tempos áureos (sem saudosismos ou com saudosismos). Não dá mais pra seguir um terreiro, cujas doutrinas e regras saem das cabeças amalucadas dos babalorixás. As regras precisam ser pautadas no reconhecimento da tradição, na construção da sabedoria, na transmissão do conhecimento pela oralidade e suas adaptações necessárias. Já não dá pra seguir uma religião que não se conhece.

      Para cada Ìyáwò burro, temos um Ègbón incompetente, ou ainda tão ignorante quanto.
      Para cada questionador, uma salvação.

      Quando o mais velho ignora a construção do seu conhecimento, se torna inútil para a manutenção das tradições. Quando o Ìyáwò busca o conhecimento, ele torna possível a luz para a manutenção da religião. Para cada louco que descumpre as mesmas doutrinas e regras, temos milhares que batem suas palmas. E esses mesmos milhares postam seu descontentamento com as vias que a Religião parece tomar. Hipocrisia? Ignorância? Conveniência?

     Também é conveniência quando apagamos os erros cometidos no passado, por quem quer que seja. O exemplo tem que vir de casa. Da Raiz. Não dá mais para nos apoiar nos alquebrados. 

    É necessário saber que, sofreremos muito enquanto a base, os mais novos, os ìyáwó, não se preocuparem com a construção de seus conhecimentos e enquanto os mais velhos estiverem mais preocupados com seus egos do que com a transmissão de seus conhecimentos. Para cada casa que suja o nome de sua tradição, também temos um Babalorixá conveniente com o uso do seu nome e de seus ancestrais. E isso qualquer pessoa, de ontem, como eu, pode perceber.
     
       Busquemos hoje, agora, uma casa que tenha responsabilidade com o conhecimento e aliança com a Matriz. Abandonemos os axés cuja história seja elíptica, desconhecida, distorcida e mesmo, suja. A morada do nosso santo não pode ser a morada das condutas trantantadas. 

quinta-feira, 12 de abril de 2018

POR QUE ESCREVER SOBRE CANDOMBLÉ É DIFÍCIL?





         É muito difícil falar de candomblé, visto que se trata de uma tradição expressamente oral e aprendida diariamente na convivência em comunidade, nas funções religiosas. A função religiosa é todo preparativo ritualístico ou não que torna possível a existência do candomblé e sua apresentação à sociedade, seja a sociedade correligionária ou mesmo a civil, não pertencente, de maneira iniciática à religião.

            A história não está ligada ao homem, nem a qualquer objecto em particular. Consiste inteiramente no seu método; a experiência comprova que ele é indispensável para inventariar a integralidade dos elementos de uma estrutura qualquer, humana ou não humana. Longe portanto de a pesquisa da inteligibilidade resultar na história como o seu ponto de chegada, é a história que serve de ponto de partida para toda a busca de inteligibilidade. Assim como se diz de certas carreiras, a história leva a tudo, mas contanto que se saia dela.

Claude Lévi-Strauss, in “La Pensée Sauvage (1962)



            Para Strauss (1962), a história por si só não está ligada ao homem, talvez pelo fato dela ser associada ao relato unicamente, ou estabelecer um parâmetro temporal e se preocupar com o método. Assim, quando se escreve, se relata, historicamente. É a partir da história que se ressalva aquilo que aconteceu, a forma que aconteceu e como foi o sentimento no ocorrido. Entretanto, para seu biógrafo, Denis Bertholet, Strauss tem em sua obra um enfoque que se debruça sobre o homem e sua construção, dissociando e associando o indivíduo à sua obra, com fusão e com fissão. Produto e produtor. Esse é o papel da Antropologia. Encontrar a si mesmo dentro dos padrões culturais e analisá-los dessa forma. Talvez o que haja de mais verdadeiro seja toda essa subjetividade envolvida no viver.

            No caso do candomblé, a sua história ritualística é acabada, ou seja, está construída e respaldada, entretanto o aprendizado de tudo (ritual, dança, língua, canto, comidas...) se dá de acordo com o tempo e vivência, numa ode a senescência, como já descrito neste blog. Assim, quando eu falo sobre a religião, represento, com ou sem autorização, todos os meus ancestrais, sendo eu digno ou não de tal fato. Outrossim, estou sobre o julgamento dos meus iguais ou superiores. Isso porque a tradição é oral e vivida, não registrada.

            Resumidamente, falar sobre candomblé é falar sobre resistência, história, vivencia e segredos. Assim  as barreiras são tantas e tamanhas. Cada palavra deve ser medida a fim de não destruir ou manchar o nome dos ancestrais da pessoa que fala. Nem pôr o que foi dito em situação de dúvida ou efeito falacioso.


Bibliografia:

https://www.comunidadeculturaearte.com/as-teorias-e-conceitos-de-claude-levi-strauss/
https://www.britannica.com/biography/Claude-Levi-Strauss
https://www.terra.com.br/noticias/mundo/europa/saiba-mais-sobre-levi-strauss-o-pai-da-antropologia-moderna,004d43e78784b310VgnCLD200000bbcceb0aRCRD.html
imagem: https://br.pinterest.com/pin/84724036719032407/

terça-feira, 12 de setembro de 2017

VILIPENDIARAM NOSSAS TRADIÇÕES...



Resultado de imagem para xango Carybe
Xangô - De Carybé (!?)


     Há muitos dias nós temos ido dormir com certo rancor, ódio e desejo de vingança. Se isso é certo ou não, nesse momento não há como afirmar. Nossas tradições vem sendo fisicamente vilipendiadas, porque moralmente há anos acontecem ações de aviltamento, menosprezo e indignidade. TODOS OS DIAS, nas televisões, nas igrejas, pelos vizinhos... o cristianismo parece receber seu 'espirito' assassino e destruidor no afã de causar destruição por onde passa.
    As principais heranças que podemos perceber estão entre a destruição do continente africano e seu povo, o racismo, a segregação cultural, guerras, guerras, guerras e mais guerras. A bíblia, tida por muitos como o livro da verdade, a vontade de Deus e tudo mais, parece ser um instrumento maligno que guia cegos e analfabetos a criarem facções e distribuir o mal, fazer mal, causar mal. Eles não ligam se minha mãe, ou a sua mãe - Querido Correligionário! - vai dormir com medo ou permanece com medo, enquanto estamos em nossos terreiros ou voltamos deles para casa. Porque hoje, parece que podemos não retornar em segurança, ou com vida.
     Portar nossos fios-de-conta, nossas roupas africanas, os torços femininos, ou mesmo as roupas brancas, se mostra mais perigoso do que o era nos tempos da escravidão. Estamos vivendo no caos há muito tempo. E, do nosso lado, ouço apenas SILÊNCIO.
     A vingança gera mais comoção, mais atrito e fere inclusive os inocentes. Há muitos cristãos de boa índole, de caráter e com espirito de afabilidade, de respeito. Há também os tolerantes, que cumprem sua função de respeitar, mesmo que saibamos ou percebamos que trata-se de uma medida apenas política mas, estes não nos ferem tanto, nosso lombo tem ficado duro após tantas chibatadas ao longo dos anos.
     Em Santa Luzia, região metropolitana de Belo Horizonte, em Minas Gerais há uma ação judicial que impediu o culto religioso das tradições africanas. Isso mesmo!!! Em 2017!!! Mais precisamente em Julho. Quando a própria Constituição Federal, em seu Artigo 5º, VI, apregoa que a liberdade de culto e o livre exercício das religiões são invioláveis, bem como os locais de culto. Mas, a quem recorrer?
    Essa semana (primeira quinzena de setembro de 2017) assistimos cenas fortes de destruição de terreiros, seus espaços sagrados, seus quartos de santo, ibás (assentamentos), ilekes (fios), kelês... Cenas fortes. Que me levam a reflexão que esses mesmos homens jamais o fariam com os espaços sagrados dos Muçulmanos - Aprendamos irmãos! - ou mesmo o Vaticano, pois estas tradições tem proteções que nos parecem impossíveis de acessar. O processo histórico nos mostra isso.
     Uma mulher teve seu kelê arrancado do pescoço com um revolver! COM UM REVÓLVER! Isso é estarrecedor. O Cúmulo. Não podemos ficar de braços cruzados. 
     Estou profundamente triste, com certo rancor e amargurado com os ocorridos. Espero que, em breve, possamos lograr êxito em nossas intenções de respeito e proteção. Ainda que, QUALQUER COISA que seja feita agora, jamais sanará nossas perdas, nossas dores, nosso sofrimento com relação ao desrespeito com o sagrado. Afinal, nunca ouvimos dizer que um omo orixá, um filho ou pai de santo, invadiu ou interrompeu uma igreja ou um culto, ou mesmo humilhou cristãos, em virtude de suas tradições.
    Que a Justiça de Xangô seja feita. Que sua ira se divida entre os vilipendiadores e seus intervenientes.


TATTO BARROS

https://extra.globo.com/casos-de-policia/policia-identifica-suspeitos-de-ataques-contra-terreiros-na-baixada-fluminense-21818164.html
https://www.brasildefato.com.br/2017/07/25/em-santa-luzia-regiao-metropolitana-de-bh-justica-impoe-dias-e-horarios-para-cultos/
http://cbn.globoradio.globo.com/editorias/policia/2017/09/13/CRIMINOSOS-OBRIGAM-MAE-DE-SANTO-A-DESTRUIR-PROPRIO-TERREIRO-EM-NOVA-IGUACU.htm


terça-feira, 18 de julho de 2017

UMA ODE AOS NEÓFITOS



Há algum tempo, escrevi uma Ode aos Antigos e Sábios. Alguns amigos e irmãos de religião vieram a mim e contaram suas histórias de respeito aos mais velhos, dedicação e afeto emprestados aos antigos dentro das tradições, conforme manda o figurino. Entretanto, com o tempo, perceberam que dali não sairia sequer uma fagulha de conhecimento, ou mesmo, tiveram a percepção de se tratar de um sacerdote que não tinha conhecimento algum para oferecer. O que fazer? Como agir? Todos os antigos são dignos de nossa devoção e fidelidade?
“O preço da fidelidade é a eterna vigilância”, Millôr Fernandes nos empresta sua sabedoria para mostrar que ainda que nós sejamos fieis, dedicados e reverentes dentro de nossas crenças, sejam elas quais forem, observar atentamente os passos dados e as mãos acolhedoras também se faz necessário. É com pesar que lemos todos os dias os sacerdotes ou oloyês nas redes sociais falando mal ou ensinando um Ìyáwò ser um bom Ìyáwò, sem que entretanto tenha aprendido a ser um bom pai/mãe/orientador, ou mesmo ser exemplo, ter caminho e conduta ilibada.
Isso talvez explique a famosa sentença da pesquisadora visionária da Umbanda, Martha Justina, que alega que a “A lei da umbanda também segue seu curso evolutivo, saindo das grotas, das furnas, das matas,  abandonando os anciões alquebrados, fugindo dos ignorantes, quebrando as lanças mãos dos perversos (...)” (Justino, 1942). Obviamente, ressalvam-se as ideias positivistas e racistas empregadas na origem da religião brasileira, buscando o distanciamento da sua natureza africana, mas demonstra que, o Candomblé está nas mãos de poucos anciões e sábios, que já estão partindo, enquanto alarga-se a presença de sub-candomblés, formados e compostos por pessoas que não tem qualquer aliança com os antigos e sábios, ou mesmo com as Casas Matrizes da tradição.
Vemos hoje, inúmeros membros que não sabem se vestir, se comportar, rezar, cantar... Que não sabem axé. E isso é um constante retrocesso e mesmo o pontapé inicial de uma religião/cultura tradicional que assiste seu fim.
   Respondendo às perguntas iniciais, quando há um interesse de ingresso ao candomblé devemos, antes de tudo, fazer uma investigação de vida pregressa do bàbálòrìṣá, Ìyálòriṣá, temos de saber se são de raízes confiáveis, de tradição e respeito; há a necessidade de saber se são bons filhos, trabalhadores em seus aṣé ou são apenas os visitantes (filhos-clientes). Temos de saber se cumprem com os requisitos da matriz que dizem pertencer, ou se, com frequência, tem acesso aos novos saberes de seu aṣẹ́. Há vários sacerdotes que nunca frequentaram uma casa, como filhos, nunca lavaram, passaram, limparam. Nunca lavaram sequer uma louça na casa onde foram feitos. Nunca viveram uma função como filhos, bons e dedicados. Simplesmente, compraram seu passe de Sacerdotes. Não viveram o que é ser de candomblé e suas superações diárias.


"No candomblé, é a gente que se supera, não tem que superar o outro, tem que superar a si próprio. Não tem que tentar superar o outro com essa questão de valores materiais, não tem nada disso. E eu nunca tive essa pretensão. A minha alegria era servir ao orixá e à minha mãe-de-santo, fazer as coisas dentro dos parâmetros certos." (Mãe Stella de Oxosse, por Mariano, 2001)


      Infelizmente, pode ser que descubramos tardiamente, entretanto, sempre é hora de recomeçar. Procuremos lugares sérios, idôneos, onde a religiosidade se sobrepõe a vaidade e à precificação da coisa sagrada. Lugares de fé e fato. 
       Há uma frase famosa de Leonardo Da Vinci que expressa justamente o sentimento, a sensação de pertencer ao que é retilineo, sábio e valoroso. Ao que é respeitado não por nome (apenas) mas, por valor de tradição, confiabilidade e referência: "Uma vez que você tenha experimentado voar, você andará pela terra com os olhos voltados para o céu. Pois, lá esteve e para lá deseja voltar".
       Devemos respeitos aos mais velhos, àqueles que chegaram antes de nós nas tradições. Sempre. Porque cada um só pode dar aquilo que tem. Mas, faz-se necessário enfatizar que não dá para viver nas trevas do conhecimento. Trabalho, fidelidade, dedicação devem resultar em saber. Assim sempre foi o candomblé, assim deve permanecer.
       CONCLUINDO, desejo que todos os novatos, sejam eles abiyan ou ìyàwó ou ainda ègbón, encontrem seus lugares. Em conformidade com a religião e seus pressupostos, em aṣé, em trajes, em essência, em respeito às tradições. E, que a cada segundo estejam aprendendo como se aprende na mais profunda raiz que deu origem a sua pertença.


TATTO BARROS


REFERÊNCIAS:

JUSTINA, Martha. Atualidade da Lei de Umbanda. In: Primeiro Congresso Brasileiro do Espiritismo de Umbanda. Trabalhos apresentados ao 1º Congresso Brasileiro do Espiritismo de Umbanda, reunido no Rio de Janeiro, de 19 a 26 de outubro de 1941.Rio de Janeiro: Jornal do Comércio, 1942, p. 93-4

MARIANO, Agnes. Entrevista com Mãe Stella de Oxosse. In:https://historiasdopovonegro.wordpress.com/fe-2/no-candomble-e-a-gente-que-se-supera-nao-tem-que-superar-o-outro-entrevista-com-mae-stella-de-oxossi/ . Em 2001.

quarta-feira, 5 de julho de 2017

CANDOMBLÉ: Ode à Senescência em tempos de Asilo!




"A cultura é o melhor conforto para a velhice"
Aristóteles




Luz Negra - Rogério Braga


Vivemos em tempos em que, a cada hora, o número de idosos cresce em asilos, como se a família não tivesse tempo para cuidar dos seus. Assim, junto a velhice vem a solidão, o abandono, a tristeza... que acometem a saúde não só mental do idoso.
Nesse instante em que o jovem se dissocia cada vez mais da família, das tradições, dos propósitos espirituais (não faço apologias religiosas nessa expressão), filosóficos e, muitas vezes, sociais, o candomblé vem à tona com sua supervalorização dos idosos. Uma valorização que emprega uma carga moral à religião, que só sobrevive pelas questões orais, preservadas e professoradas pelos mais antigos. Assim, teoricamente, quanto mais antigo mais sábio, uma enciclopédia viva de todo teor teológico e teosófico de nossas tradições.
As profundas transformações sociais em que vivemos tem balançado nossos conceitos de família e mesmo, de responsabilidade. Zygmunt Bauman, um pensador, sociólogo da contemporaneidade, desenvolveu um conceito que é muito bem aplicado para este momento: Modernidade Líquida. Que se refere às constantes necessidades de transformações para adaptação ao meio. Uma teoria muito interessante que define a atualidade.
Os conceitos morais/éticos parecem estar cada vez mais abalados, ou mesmo relegados ao segundo plano, perdendo para o bel prazer, satisfação momentânea ou para o mercado. A família hoje, tem se colocado muito mais para o trabalho que para a própria valorização da vida, da felicidade ou mesmo do cuidado e manutenção dos laços. Os pais contratam profissionais para a educação dos filhos, dão às escolas a responsabilidade sobre a formação moral, ética, profissional, porque educar dá trabalho e exige tempo. Justamente nesse instante, o afeto é rompido. Lacan, um grande psicanalista francês, emprega em suas obras que o papel dos pais está também em castrar o excesso de liberdade, valorizando a união, o respeito, a ordem que começam dentro de casa. Não há rédeas que segurem um adolescente sem limites ou noção de respeito. Tudo começa pela boa educação e respeito professorados pelos responsáveis.
E nesse orbe de pensamento compreendemos que o papel dos pais está por sobre além de bancar uma educação, saúde, segurança de qualidade fora de casa. Eles devem, dentro de seus lares, ensinar o respeito e a valorização dos laços, dos avós, tios, primos, etc. Quando as noções do amor, respeito e valorização não estão bem empregadas esses mesmos pais colherão a amargura de uma velhice na solidão. Ou ainda, o afastamento afetivo antes dessa idade.
O candomblé, em contrapartida a tudo isso, é uma religião e cultura tradicional, onde a valorização do ancião (velho, idoso, antigo, agbá) se dá a todo instante. Porque onde a cultura é oral há a necessidade do culto e reverência às Bíblias Vivas.
Não comer antes do mais velho. Não se sentar na mesma altura que o mais velho. Não falar mais alto que o mais velho. Não se postar acima da cabeça do mais velho. Pedir licença ao passar pelo mais velho. Não se estabelecer numa conversa entre os mais velhos. Essas são todas lições que nos trouxeram até aqui, com a valorização da senescência associada com amor e respeito. Caso essa modernidade adentre em nossas tradições, ela pode nos afetar negativamente, fazendo-nos acreditar nos fundamentos teológicos de livros, ao invés de pessoas que se prostraram e viveram a religião durante as décadas da caminhada.

TATTO BARROS

domingo, 28 de agosto de 2016

O PRECONCEITO ÀS RELIGIÕES AFRICANAS

 REFLEXOS HISTÓRICOS E ANTROPOLÓGICOS


Certa vez Voltaire disse “Preconceito é opinião sem conhecimento”. Isso é indiscutível. Toda a gama de ações contra o povo de religião afro-brasileira não é mera ação religiosa, ou imbuída de uma fé, apenas. Se o fosse, já seria criminosa e imperdoável. Entretanto, trata-se do preconceito racial velado. Ação da sociedade como um todo, contra os negros e sua ancestralidade africana.
Exatamente assim. Trata-se de uma herança cultural, impregnada no cerne da sociedade branca, cristã e elitista. Percebemos assim que o que é do negro não é digno se comparado com o que pertence ao branco. Se uma pessoa se considera cristã, católica, judia, ou qualquer outra denominação, seja no trabalho, na família ou nas escolas, esta não sofre os olhares preconceituosos que um declarante de religião de matriz africana. Toda a visão torpe do pensamento vitimista deve ser abandonado para perceber que os seguidores do Candomblé e da Umbanda, em suma, por vezes mascaram sua fé e tradição em nome de uma visibilidade mais agradável aos olhos da sociedade.
No trabalho, muitos escondem suas tradições. Isso é um fato, inquestionável e claro. Evidente.
Se lançarmos um olhar sobre o passado, conseguimos entender os motivos. Os pretos, escravizados, deveriam esconder suas tradições, nas vestes e filosofias cristãs, impostas socialmente. Aquele que não se convertesse morria, sofria no tronco, não que, o então objeto tivesse alma, sobretudo para o agrado do capital, do senhorzinho, da burguesia e do patriarcado.
Portanto, o preconceito religioso atribuído às religiões de origem africana, são, em suma, formas veladas do preconceito racial, historicamente, antropologicamente, filosoficamente intrínsecos nas palavras e ações dos brasileiros. Thoreau disse, sabiamente, “nunca é tarde para abrimos mão de nossos preconceitos”, mesmo porque a origem deles, por vezes beira a animalidade ou o ridículo.
O preconceito religioso vem assolando a humanidade há milênios, o preconceito aos membros das tradições afro-brasileiras, pode começar uma guerra, mesmo que silenciosa. Pois, as batalhas e mortes, já vem acontecendo, há muito, de maneira elíptica, e poucos estão percebendo.

Tatto Barros

segunda-feira, 11 de julho de 2016

O MITO DA CONSCIÊNCIA NEGRA


DESCONSTRUÇÃO DO APRENDIZADO DA HISTÓRIA e DESDOIRO DO PRECONCEITO




    O vigésimo dia do mês de novembro de todos os anos, a partir de 2011, é nomeado como feriado (em alguns municípios, não na totalidade deles) de Dia Nacional da Consciência Negra. Sob o respaldo da lei nº 12.519, instituída. A data faz uma alusão à morte do líder do Quilombo dos Palmares, Zumbi, que foi morto de maneira cruel pelos brancos. Morte exemplificadora, com a cabeça cortada e salgada, levada ao Governador Melo de Castro (1695). A cabeça de Zumbi fora exposta no Pátio do Carmo (Recife- PE) com o falo na boca de modo intimidar o povo negro e desmistificar as questões de imortalidade impressas à figura do grande líder (Carneiro, 1966).
      Acontece que, no decorrer da história, os Negros tiveram seus papéis determinados pelos brancos e as regras sociais impostas fizeram com que a cultura, as tradições e mesmo a identidade deles fossem deturpadas e mesmo desconfiguradas. Basta lembrar que nos Portos Africanos, quando embarcariam rumo à Nova Terra, passavam pelo ritual do esquecimento. Porém, os escravizados aqui chegados trouxeram consigo muito mais do que a mera lembrança do que eram e continuaram sendo, trouxeram junto a si a maestria de suas histórias em suas mentes pois, os sonhos, os desejos, os aprendizados natais e suas essências eram tudo que lhes havia sobrado, assim construíram a sua história numa terra cujos donos sofreriam com igual intensidade, se não no corpo, na alma.
     A escola brasileira ainda conta história das benesses sociais empregadas por brancos aos negros, como a heroína Princesa Isabel, que os libertara numa ação de bondade. Quando na verdade, houve pressões feitas pela necessidade Industrial da Inglaterra, entre outros fatores geopolíticos que ficam suprimidos pelo ensino elíptico da verdade e dos fatos. O negro no Brasil viveu e, ainda vive, em situações eufêmicas, como se a sociedade como um todo fosse miscigenada e aqui fosse o paraíso racial. O que de fato se trata de uma falácia, que mesmo os americanos, segundo Petrônio Rodrigues em sua recente publicação para a Revista de História da USP, em “A visita de um Afro-Americano ao Paraíso Racial” (2006. p. 161-181), caíram no decorrer das décadas entre 1910 e 1960, quando rui o conceito do ‘paraíso’ no bloqueio de vistos a serem concedidos aos afro-americanos interessados no ingresso ao país.
     É em meio a toda essa estrutura de tentativa de embranquecimento do país, que a cultura negra exige espaço e igualdade, alcançando a voz necessária para iniciar o processo moroso e doloroso da transformação social. Desta forma, entre os anos 1800 e 1900 nasce o Candomblé, religiosidades e tradições negras começam a ganhar forma, a capoeira, as danças, as comidas começam a ganhar espaço na Nação e o sentimento de nacionalidade parece tomar conta da ‘vontade’ dos descendentes de escravizados que ficaram no país. Há que se lembrar que em nenhum momento o negro esteve passivo diante das situações impostas pela sociedade europeizada. O próprio nascimento dos quilombos é o reflexo da não aceitação do que lhes foram imposto, é o reflexo da necessidade do resgate da humanidade e acima de tudo da rejeição à condição de objeto.


     A formatação da Lei 10.639/03 tem como ideal fazer com que as escolas anexem ao seu currículo o ensino da História e Cultura Afro-brasileiras e Africanas, no afã de desconstruir o preconceito em sua base. Promulgada e indexada na Lei de Diretrizes e Bases que guia todas as escolas do país e é o parâmetro de currículo e avaliação, entretanto a aplicabilidade ocorre de modo deficitário e, porque não dizer (?!), falacioso. Visto que os assuntos pertinentes são poucos ou nada trabalhados, dado que as escolas têm sua trajetória e origem (e membros) cristã-normativa, o que impede que o trato às culturas e tradições negras sejam trabalhadas, porquanto que foi essa mesma tradição que possibilitou e justificou a existência da escravidão e ausência de alma do ‘negro-objeto’ e, por conseguinte, trata-se de uma estrutura maculada pelas ações religiosas no pretérito recente.
     Entender que por si só a lei não pode descontruir o racismo e as questões negras vigentes é o primeiro passo para construir a preocupação com o que está se tornando caso militar no país. É a falta da educação que mata jovens negros, que trucida fiéis de tradição religiosa negra (do Candomblé, Umbanda, Omolokô, Jurema, tambores entre outras denominações), é a falta de educação e ética que ainda justifica a existência das diversas formas de preconceito no Brasil.  “As ações afirmativas não acabam com o racismo nem com o sistema público de ensino, como diziam seus opositores. Mas, proporcionam igualdade de oportunidade”, essas são as palavras do Jornalista Carlos Medeiros, em sua palestra no Café Filosófico (19/08/2015), que expressam de fato a importância da informação. É por meio do conhecimento e da oportunidade de acesso a ele que a sociedade se transformará. A discriminação e preconceito vigentes se desconstruirão quando a ética nascer entre os homens e ela só se dará com a erudição e o acesso a informação e educação. E apenas nas mãos do poder público, onde os alunos não são clientes, mas em suma, estudantes. Apenas.
     Enquanto esse processo de ensino real e alimentado pela vontade de transformar não se concretizar, os números de vítimas de violências, seja pelos civis, religiosos, policiais, entre outros, contra a população negra tendem a aumentar, isso porque ainda são esses os socialmente marginalizados. Posto que, aqui (no Brasil) o preconceito e a discriminação são velados.



REFERÊNCIAS NO TEXTO:
CARNEIRO, EdisonO Quilombo dos Palmares, Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 3a ed., 1966.
DOMINGUES, Petrônio. A visita de um afro-americano ao paraíso racial. Revista de História/USP 155, 2006
MEDEIROS, Carlos. Raça e Racismo no Brasil Contemporâneo. CPFL Cultura: SP. 2015Acesso em < http://www.cpflcultura.com.br/2015/08/19/raca-e-racismo-no-brasil-contemporaneo-com-carlos-medeiros-integra/ >

terça-feira, 28 de junho de 2016

CARTA ABERTA A SRA PATRICIA ABRAVANEL E DEMAIS BRASILEIROS INTOLERANTES




Em países muito místicos (...), o povo deixa de trabalhar porque fica tão místico, que deixa de fazer as coisas certas para poder chegar num objetivo. Em países mais racionais, que têm uma fé em deus, mas que acredita no esforço, no suor, no trabalho, no você 'se portar', ter um casamento e ter que cuidar dele, esses países vão mais pra frente. Então, um exemplo: a África é muito mística, e a gente vê as consequências, e os EUA é mais racional, protestante, onde acredita no suor. Então, eu acho que a gente tem que avaliar nossa crença através dos frutos que elas nos trazem",

Leia mais: http://extra.globo.com/tv-e-lazer/patricia-abravanel-fala-de-misticismo-africano-causa-nova-polemica-nas-redes-sociais-19597977.html#ixzz4Ct8ZSv00



            Há muito, uma pequena parcela da população brasileira vem lutando para que as barreiras da intolerância religiosa e sua carga negativa na sociedade se rompam. Porém, desconstruir um pensamento estruturado numa herança cultural com normatividade cristã e racista é um processo moroso e requer várias ações para a constituição de uma lapidação e ruptura de um pensamento dominante. A sra, Patrícia Abravanel, há pouco, manifestou sua opinião acerca das problemáticas africanas, atribuindo todos os seus malefícios as questões religiosas, porém o que não sabe é que, durante séculos, o CONTINENTE Africano, pois não é um país, nem tampouco homogêneo, sofreu invasões e domínio dos cristãos, que sugaram tudo e mais um pouco que o continente possuía e, não obstante, inclusive seu povo e culturas.

            Os ataques hostis são muito frequentes em nosso país, devido ao Ódio e a Intolerância Religiosa, entretanto são poucos aqueles que repercutem na mídia, como o caso da Justiça Federal do Rio de Janeiro  em 2014, que desclassificava as religiões de matriz africana como religiões de fato, ou mesmo, o caso da Menina Kailane de 11 anos que ganhou notoriedade por ter sido apedrejada em 2015, por estar trajada nos confortes da tradição candomblecista (ela não se ‘portava’ de maneira correta?). Ou ainda o caso, no Rio de Janeiro, no ano de 2014, do estudante que foi impedido de entrar na escola, devido as paramentas religiosas que deveriam ser utilizadas por ele por ser uma época ritual. Neste caso, inclusive a mãe do garoto, Sra. Rita de Cassia Araújo, recebeu o pedido de desculpas formais do prefeito da cidade.

            Preconceito Religioso, Intolerância religiosa, são monstros alimentados diariamente e pessoas morrem, pessoas perdem seus empregos, pessoas perdem sua dignidade e mesmo identidades. A ponto de terem, muitas vezes, de omitir sua fé.

            Diferente de seu pensamento, Sra. Patrícia Abravanel e demais correligionários (que pensam de maneira semelhante), o objetivo das pessoas (porque somos todos diferentes um do outro) não se restringe às conquistas financeiras, conhecemos pessoas muito bem-sucedidas que foram e são extremamente infelizes, que se suicidaram, ou que doaram tudo e foram viver em monastérios, ou ainda que surtaram... Não devemos avaliar o ser humano pelo que ele tem, mas pelo que ele é, em sua integralidade.  Outra questão de sua fala é associar fé com racionalidade, dois termos muito complicados de serem trabalhados, para uma pessoa com limitação intelectual. No caso a fé americana é Fé, em suas palavras, e a fé africana é misticismo! Interessante colocação, porém, falaciosa. Eu poderia analisar muitas outras questões desse discurso, entretanto o tempo é escasso.

            Não nos tornemos antropólogos de botequim, cabe a nós, todos os dias análises críticas acerca do que falamos e transmitimos afinal, de alguma forma, todos somos formadores de opinião, principalmente aqueles que possuem acessos às mídias gerais que dispersam aquilo que dizemos e fazemos. Quando falamos de fé, o assunto complica ainda mais, pois mexe com a questão mais intrínseca aos seres, que é a identidade. A África não é um continente homogêneo, lá há cristãos, muçulmanos, tribos das mais diferentes possíveis e religiões mais variadas também. Os problemas ATUAIS africanos, todos, são oriundos da dominação cristã. Pois, em nome do Cristo, matou-se, roubou-se e escravizou-se. A miséria daquele local se deu e se dá, Sra. Abravanel, graças à sua religião, não à minha. Assim, todas as vezes, que abrir a boca para falar da religião de matriz africana, lembre-se que a estrutura do preconceito religioso, se respalda na estrutura do preconceito racial.



Tatto Barros





terça-feira, 19 de abril de 2016

E AGORA? ONDE?



EM QUE CASA DEVEMOS NOS INICIAR?


     
      O candomblé é uma das religiões mais fascinantes que existem, do ponto de vista iniciático, aos nos iniciarmos no 'mistério do mariô', a cada ano, obrigação e função (a labuta religiosa propriamente dita) o conhecimento aumenta, a aprendizagem se dá e a sabedoria é construída. A religião é uma congregação de segredos que são aprendidos e passados, de acordo com o merecimento e a participação no Espaço Religioso.
     A sabedoria é passada pela Oralidade e presença, valorizando assim os conhecimentos dos ancestrais e respeitando os dogmas e doutrinas que a tradição possui. Há, dessa forma, Casas Matrizes, que zelam pela sabedoria e conhecimento do Axé. Isto é, cada Casa de Candomblé tem, por obrigação estar perto intelectualmente e ritualisticamente dos fundamentos e ensinamentos das casas originais ( Casa Branca do Engenho Velho, Gantois e Afonjá).
      As Casas Matrizes, por meio de seus fundadores, teceram seus ideais e rituais, seguindo as cidades e tribos originais na África  (naquela época, que hoje já não existem mais). O conhecimento do Povo de Abeokutá, por exemplo, se destinou ao Gantois, fazendo com que esta casa seja referência nos Orixás que descendem desse lugar e no sistema ritualístico que era próprio dessa cidade na época.
     Quando uma Casa Descendente honra os fundamentos e aprendizados de sua Casa Matriz, ela simplesmente honra o Candomblé como um todo e evita que este morra, em pobreza intelectual, pois honrando a bandeira do axé, esta casa não criará um sistema próprio, evitando segmentações religiosas que podem culminar em facções cujo conhecimento se faz perdido.
      Nesse ponto de vista, a Internet e as tecnologias não cooperaram com a religião de tradição oral, pois criou verdades míticas e não reais, que são seguidas intensamente por casas que não tem orientação nenhuma e, nem tampouco, conhecimento mínimo obtido de suas casas matrizes. Itans, doutrinas e dogmas estão dispostos aos montes no mundo virtual, desvirtuando a religião e seus princípios da linha de sua verdade. Casas são abertas aos montes sem a mínima condição de propiciar conhecimento básico aos seus iniciados. 
      Em que casa devemos nos iniciar? A resposta é simples, porém deve ser acrescida de várias condições muito particulares. Devemos nos iniciar em uma casa que toque nosso coração, que nos enriqueça de conhecimento, pois, nas palavras de um Grande Babalorixá Pai Xáxa de Jagun, filho da Enciclopédia do Candomblé, a mais reverenciada e respeitada, Mãe Cidália de Iroko (que por sua vez, é filha da maior Yalorixá de todos os tempos, Mãe Menininha do Gantois):

CANDOMBLÉ SÓ É BOM E CERTO, SE FIZER SENTIDO!
SE NÃO FAZ SENTIDO, ESTÁ ERRADO!
O TEMPO DE IYAWO É PARA APRENDER TUDO, NO AFÃ DE SER UM EGBON MI DE CONHECIMENTO E PREPARADO.

      É constante, nas conversas de axé, verdadeiras aplicações que respeitam a oralidade, ouvirmos:  "Na minha tribo!" e isso é respeitar os fundamentos da família de axé que segue, respeitar a Origem! Afinal, se a origem não é importante, como valorizar a ancestralidade? Qual o motivo de chamar o nome dos personagens do passado? Basta pensarmos que qualquer um de nós depois de mortos, só gostaríamos de ser chamados para algo que concordamos! Certo?! Isso sim faz sentido. Nosso dever escolher Casas que nos ofertam conhecimento e respeito aos cultos Ancestrais. Escolher Babalorixás e Yalorixás que não são meras molduras de parede mas, referências de axé e pessoas respeitadas por todos, inclusive pelas Casas Matrizes, que são a fonte da religião. Muito frequentemente, ouvimos sacerdotes dizerem que nas suas casas fazem as regras que quiserem, ou ainda percebemos que Iniciam uma pessoa no Orixá, seguindo uma mesma receita de bolo. Isso empobrece e mata a religião aos poucos.
     Há que se saber o que reza, o que canta, a quem adora, quais os fundamentos e doutrinas da religião. Fora de tudo isso, são noites acordadas e dias gastos em vão. Religião é riqueza de detalhe, orientação e fundamento válido, para que as transformações pessoais e coletivas sejam feitas e a fé enriquecida!

    
TATTO BARROS

terça-feira, 22 de setembro de 2015

O DEUS QUE ADORAMOS



    Uma verdade religiosa só se dá quando é resultado de uma experiência subjetiva dentro de qualquer contexto religioso. Essa experiência religiosa deve ser dotada de uma verdade tão pessoal que apenas o ser experiente a compreende. Um instante de experiência vivido que apenas a pessoa pode se valer, não podendo este ser dividido com mais ninguém, a não ser servir como um parâmetro objetivo, como um alvo para outrem alcançar. Nesse contexto, devemos perceber que independente da nomenclatura, a função da religião é restabelecer a conexão do ser com o sagrado.
     Dentro das tradições iorubanas, Deus, o Criador de tudo, Senhor dos Senhores, é um ser tamanha elevação que, de maneira complexa, há uma rede labiríntica de acesso. Há algo de inacessível no criador de todos os seres, vendo de maneira externa à religião. Destarte, podemos perceber que a criação de entidade e seres, favorece a existência de agentes cooperadores da organização de todo o universo (Multiverso). Deus, ou Olódùmarè ou ainda Olórun, ou Olófin tem como agente os Orixás que, são responsáveis por toda a dinâmica da vida e suas mínimas estruturas.
     Assim, o Deus que cremos, acreditamos, adoramos e louvamos é o mesmo Deus de todas as outras religiões ou tradições, sem sofismas ou egocentrismo cultural, no que cerne a superioridade. É o mesmo Senhor, apenas chamado de nome diferente, louvado de maneira diferente das demais tradições. Oba N’la.
Em suma, percebe-se que o Orixá é a conexão do ser humano com a natureza e a pureza da Criação. Adoramos essas entidades que, abaixo da hierarquia Divina, nos banham de maternidade e paternidade, lições do bem viver, moral e ética, e alegrias.
     O que nos diferencia é que comemos, bebemos, abraçamos e tocamos nossos deuses, que se manifestam em nossos irmãos, de maneira a nos possibilitar a concretude da fé. E essa é a mágica da cultura africana, como um todo. A possibilidade. A visão. O tato, o toque. A lágrima e a satisfação de ver a fé em movimento, nos acalantando e segurando sempre que possível.




Tatto Barros

domingo, 30 de agosto de 2015

SOB UM OLHAR OBSERVADOR


     Há muito a visibilidade negra, apesar do preconceito iminente, vem sendo creditada na sociedade, de modo que o contato com as tradições vem crescendo. Isso é importante, faz-se cada vez mais necessário agregar a todos os indivíduos a riqueza e a cultura intrínseca à religiosidade ketu, jeje e Bantu.
     As tradições (de Ketu, de Angola ou Jeje) apesar de suas imensas diferenças possuem suas similaridades (Não querendo ser paradoxo, mas já o sendo). Dentro delas, o amor aos deuses se faz presente e são eles os representantes da Natureza e a manifestação dos sentimentos e sensações humanas. Ou melhor, que os seres humanos possuem. Afinal, por que não dizer que todo desejo de amor materno, de cuidar, de zelar, por exemplo, são sentimentos/atributos de Iemanjá? (Nome que, em iorubá, significa Mãe cujos filhos são peixes, ou simplesmente, Mãe dos Peixes). Ou ainda, como não dizê-lo que na sociedade bantu, Iemanjá possui suas similaridades com Mikaiá, e ainda, sob o mesmo ponto de vista, nas tradições Jeje, Azli.
     Obviamente, a mistura das tradições pode trazer suas compensações porém certamente, deletará a riqueza que cada uma pode apresentar, individualmente. Mas, quem determina o limite?
     Apenas na tradição Ketu, o Ritual Fúnebre (Axexê), invoca nas três línguas, fon/fongbé (Jeje), Bantu (Angola) e Iorubá (Ketu), cantigas para o advento da passagem. Apresentando sua característica, no Brasil, de juntar e mesmo reverenciar as demais nações. Entretanto como dito, afora toda reverência, a mistura das nações pode ser danosa para a riqueza e mesmo a fidelidade às tradições.
     A beleza do Candomblé está em apresentar para as pessoas, um deus que se encontra presente, que se preocupa, que abraça, acalanta e demonstra o amor de maneira física, como apenas esta tradição o pode fazer. Um deus que canta, dança, come e abraça. Evitando assim, toda a frieza que tradicionalmente, a sociedade nos impõe sobre a figura divina.
     Conhecer a Cultura dos Orixás é acima de tudo reconhecer a ligação que temos com os deuses e sentir de maneira física, espiritual e mentalmente toda conexão que temos com a Natureza e a parte dela em nós. Para isso, devemos identificar a fidelidade das diferentes casas às suas tradições. A mágica da religião se dá pela riqueza do conhecimento deixado pelos nossos Ancestrais que são chamados como testemunhas, cada vez que rezamos os Obis, Orobôs e Lobaças. Ora, se os chamamos, estamos os convidando para validar as lições aprendidas, para validar a fidelidade que temos ou tentamos ter a toda sabedoria deixada por eles a nós. Há que se ressaltar que cabe a cada família de Axé, buscar suas origens e ser fiel às suas matrizes, afinal, nossa religião não tem bíblia porém, um acervo muito maior em rezas, cantigas, preces e danças que deixam suas lições. Podemos viver todos os dias aprendendo estas lições e ainda assim, em uma vida seria impossível assimilar toda bagagem de conhecimento que o candomblé tem a nos ensinar.






TATTO BARROS 

quarta-feira, 15 de julho de 2015

QUESTÃO LINGUÍSTICA

As Baianas - Carybé


Segundo Vygotsky, um pensador pedagógico do início do século XX, o estabelecimento e a aquisição do conhecimento se dá de forma social, já que o homem é social por natureza, ou seja, se estabelece em comunhão. A vida religiosa dentro das Tradições de Ketu não foge à essa regra. A construção do eu e o papel a ser desempenhado dentro da comunidade se dá pela observação dos outros, na cópia das posturas e dizeres e assim, acontece o sucesso espiritual no agrado às Entidade louvadas e felicidade estabelecida por se tornar com o tempo modelo para aqueles que estão entrando na comunidade/religião.
O Sucesso espiritual acontece quando tecemos uma rede de conhecimento, em reverência àqueles que vieram antes de nós, sendo eles nossos mestres e exemplos. Toda essa gama de conhecimento está relacionada aos hábitos inerentes ao Candomblé Ketu, como a língua, a dança, as lendas (itan), vestimentas, posturas e etiquetas gerais.
A priori, o que observa-se com veemência ao entrarmos no ambiente religioso é a linguagem estabelecida, além das vestimentas diferenciadas. O Iorubá é a língua vigente, no qual se misturam palavras em português, como que soltas e  tatuadas na gramática religiosa. Um simples “- Oi” é respondido ou antecedido da expressão “- Motumbá” que logo se faz respondida por “- Motumbaxé , Motumbá”, criando um ambiente assim propicio para aquisição de uma segunda língua de maneira concomitante com os outros aspectos comportamentais referentes à religião.
Isso porque, todas as rezas e cânticos tradicionais se fazem nesse idioma, considerado sagrado e, logo, a forma pela qual os orixás se comunicarão ou mesmo ouvirão as súplicas e as adorações de seus fiéis. Com o tempo, o iniciante, Ìyàwó, vai desenvolvendo suas relações com a língua, por meio das cantigas e suas traduções, cujos mais velhos se deliciam em explicar e fazer o iniciado experienciar o néctar dos deuses em forma de conhecimento que é supervalorizado dentro das casas religiosas, afinal, conhecimento associado com tempo de iniciado significa posto, postura e sabedoria. Principalmente, para aqueles que souberam beber da fonte de seus mais velhos e com muita educação e respeito (rumbê), ouvir e assimilar toda a carga de informações que serão relevantes no futuro e, como uma corrente, passadas para os mais novos, não deixando a tradição morrer. Afinal, o candomblé não tem um livro sagrado que fomenta e regulamenta o rito. As leis e tradições são passadas de forma oral. O que cria ainda mais a mágica do segredo. E, é por isso que buscar informações na internet e comunidades virtuais, no afã de aprender ‘axé’ é o mesmo que buscar pães no hospital. Candomblé se aprende com presença, aliança, dedicação e merecimento.



ÈDÈ YORÙBÁ


O idioma Iorubá é tradicional, hoje, em algumas regiões da Nigéria, falado também em alguns locais subsaarianos, também Benin e Togo, e pelos religiosos de tradição Ketu/lucumi. Idioma tonal e apresentado no mesmo sistema que o português e o inglês, no tocante à gramática, o sistema SVO (Sujeito- Verbo – Objeto).

Possui as mesmas letras do alfabeto português, excetuando, C, Q, V, X e Z.  Com acréscimo das letras Gb (som de B, com estalo), E (som de É aberto), O (Som Ó aberto), S (som de X, CH).



A importância do idioma é tamanha, visto que, é por meio da boca que reza que as entidades são invocadas, que os Deuses dançam e que toda a religião se faz, a boca que reza é sagrada, portanto, aquele que porta a palavra deve ser tratado e, o é, com muito respeito e esmero. Ignorar a importância de estudar e se dedicar ao aprendizado do idioma é o mesmo que abdicar da compreensão de fazer o que faz e aprender o que faz e porque faz. 

Uma vez, um homem muito sábio me disse: "- Se não faz sentido, está errado. Candomblé tem que fazer sentido, menino!" 
Hoje eu digo a ele: A benção Pai!







 TATTO BARROS

segunda-feira, 8 de junho de 2015

A VIDA RELIGIOSA



     Talvez, o que há de diferente nas religiões afro brasileiras, em comparação com as famosas e conhecidas religiões do mundo, seja o resgate de si mesmo, ao qual cada um está exposto, a introspecção e o desejo suntuoso pelo bem-estar e estar-bem na vida física. Não há uma busca opulenta pelo outro mundo, pela pós-vida, os acontecimentos buscados são para agora, são necessidades imediatas, nesta existência, pois, ela encerra em si mesma toda glória ou esquecimento.
     A glória se dá pela memória dos que ficam, quando os feitos daqueles que já se foram são mais que considerados pela sociedade vigente. Assim, toda vez que for necessário louvar/saudar determinado orixá, também será feito pela invocação daqueles que a este foram iniciadas e, partiram para outro estágio da vida. Além do corpo físico.
     Está lembrança memorável se dará pela invocação do nome religioso que cada um angaria quando é iniciado nos "mistérios do mariô" (Màrìwò). Nas rezas do obi, por exemplo, onde os ancestrais são chamados para ouvir e mesmo inferir e transmitir a mensagem dos deuses. Os ancestrais louvados e chamados são as pessoas que, para o invocador, se fazem importantes, já que construíram um legado e foram para este, mais que professores.
     Já o esquecimento se dará para aqueles que não construíram um legado, não buscaram o enaltecimento do nome, da cultura e nada cultivaram ao outro, de jeito que não serão lembradas por qualquer ato. Ou mesmo se dará para aqueles que construíram suas vidas em caminhos falaciosos. Caminhos estes que se construíram na vergonha da falta de caráter e da mentira. 
     Obviamente, há lados bons e ruins da propagação da fé iorubana, principalmente. Visto que, a tradição jeje (djedje), por exemplo, conseguiu se manter mais fiel às origens do que as demais nações (ketu e angola) cuja propagação construiu a fama, isso porque, toda a expansão 'descontrolada', produziu casas religiosas que são afastadas inclusive ideologicamente de suas matrizes. Nas quais, o culto se perdeu, as tradições se perderam, a cultura se perdeu e, logo a religião se diferencia, de modo danoso para aqueles que buscam angariar o conhecimento e construir a sabedoria afrorreligiosa. 
      Para aqueles que buscam o vestíbulo às religiões africanas, há que se considerar o quão unidas estas se fazem com suas matrizes, que seja, por exemplo, o Axé Oxumarê, Axé Pilão de Prata, o Ilê Axé Opô Afonjá, o Axé Casa Branca ou ainda, o Axé Gantois. Isso porque, a religião estabelece vínculos com os ancestrais e apenas com esse vínculo estabelecido o conhecimento virá. O tempo vivido de religião implica em construção e lapidação da sabedoria, já que por meio da vivência que o conhecimento é transmitido.
      Há todo um sentimento de reserva e segredo nas tradições, devido aos processos históricos aos quais o povo negro foi submetido no decorrer da construção social e suas modificaçoes. Assim, apenas a fidelidade, confiança, tempo, estabelecimento de vínculos darão segurança para que os mestres ensinem os aprendizes.  Por fim, se construirá o laço familiar inerente à religião, com país, mães, filhos, sobrinhos de fé. Cuja hierarquia banha e protege os seus. A palavra de ordem para alcançar os degraus da sabedoria é dedicação, associada com merecimento.




Tatto Barros

quinta-feira, 4 de junho de 2015

RITUAL E SACRIFÍCIO




      Este blog já abordou o assunto "Sacrifício" mas, Mãe Stella de Oxóssi (Sacerdotisa do Ilê Axé Opô Afonjá) escreveu um artigo para o Jornal "A Tarde" de Salvador, como o faz quinzenalmente, cuja a riqueza é difícil de ignorar. Segue este Texto, para apreciação e enriquecimento cultural e religioso.
 
 
 
      "Este é o último artigo que comenta sobre o “corpo religioso” do candomblé, da maneira como ele é professado no terreiro/templo Ilê Axé Opô Afonjá, onde fui iniciada e me tornei iyalorixá. Já foram feitas observações sobre cosmogonia – origem do mundo segundo o povo yorubá; liturgia – cerimônias abertas ao público; dogmas – verdades reveladas pelos orixás, que são aceitas usando-se o critério da fé. Hoje o tema é ritual: cerimônias que se baseiam em mitos que foram sendo transmitidos pelos ancestrais. Nos rituais revivemos passagens importantes dos orixás aqui na Terra e, assim, conectamo-nos com o comportamento deles. Os rituais, através dos mitos, ensinam para nós os comportamentos que devem ser seguidos e os que devem ser evitados. Muitos desses rituais são repetidos em épocas específicas, pois têm que estar em conexão com os ciclos da natureza. É de fundamental importância que os sacerdotes busquem e adquiram esse conhecimento, pois só assim os rituais alcançam todo seu potencial.
      A grande polêmica que fazem com a religião dos orixás é o fato de em alguns de seus rituais animais serem sacrificados. Uma prática que existe desde quando o homem precisa alimentar-se. Sempre foram realizados por muitas religiões, mas que aos poucos foram deixando de existir em algumas. A pergunta é, então, por que o candomblé ainda faz o que, para muitos, é considerado uma barbaridade?
      A resposta é simples: essa religião tem uma profunda relação com o planeta Terra, tanto que suas danças são feitas com os pés totalmente plantados no chão, diferente do balé, que parece demonstrar que os bailarinos, dançando nas pontas dos pés, desejam alcançar o céu. Essa ligação com a terra não poderia excluir a necessidade que o homem tem de se alimentar para sobreviver. Oferecemos aos deuses tudo aquilo que nos mantém vivos e alegres: alimentos, flores, perfumes, água limpa e fresca. Tranquilizo os leitores dizendo que no dia em que os homens deixarem de ter na mesa galinha, galo, carneiro, porco, boi… naturalmente esses animais deixarão de ser ofertados aos deuses. Se um dia o sacrifício humano existiu foi porque as tribos se alimentavam de seus semelhantes. Se a desculpa para crítica de sacrifício de animais se deve ao fato de eles serem seres vivos, gostaria de lembrar que laranja, alface, couve também são seres vivos.
      Afinal, quando arrancamos uma raiz de inhame para que ela faça parte da nossa farta mesa de café da manhã, nem lembramos que sacrificamos um ser vivo. Neste caso é para nos servir de alimento, e quando arrancamos uma flor pelo simples prazer de curtir sua beleza? Gostaria, apenas, que as pessoas que criticam os nossos rituais refletissem sobre o que foi dito anteriormente, com o coração e a mente aber ta, e chegassem às suas próprias conclusões. Não é nosso interesse forçar alguém a crer em nossas verdades, mas é nossa obrigação fornecer subsídios para ajudar as pessoas a ampliarem o conhecimento de suas mentes, a fim de que seus corações possam ficar cada vez mais livres de preconceitos, o que faz com que eles se tornem mais purificados.
       Caso tudo o que falei ainda não tenha servido para que o sacrifício de animais no candomblé possa ser compreendido, quero lembrar que os animais de que o povo se alimenta no seu dia a dia são mortos em série, de maneira cruel, nos abatedouros. Os nossos animais são reverenciados desde que são escolhidos nas feiras livres, até o momento em que são oferecidos aos orixás, quando cobrimos seus olhos com folhas específicas de calma e cantamos a fim de diminuir o estresse que eles possam estar sentindo. Além disso, eles não são animais quaisquer, são escolhidos aqueles que o sacerdote consagrado para esta função percebe que já estão no momento de passar para outro estágio evolutivo. Não matamos o animal, damos a ele um novo nascimento, por isso cantamos: Bi ewe yeje para lala ie, Ògún pere pa = Demos-lhes um novo nascimento, você resistiu à prova, ultrapassou seguramente privações e sofrimentos, você não está morto, está vivo. Somente Ogun mata."
 
 
 
  MÃE STELLA 
 
 
 

terça-feira, 19 de maio de 2015

A DANÇA E A IDENTIDADE



      A mágica da tradição iorubana se dá já no primeiro contato com a religião, quando a música e a dança cumprem seu papel extansiante de elevar o ser humano a um outro patamar de consciência e percepção. 

" Mostrem-me como dança um povo e eu lhes direi se sua civilização está doente ou tem saúde" (Confúcio)

      A dança e a música são características fundamentais e basilares da tradição afro-brasileira, as orações, manifestações, personalidades são todas mostradas por meio dos gestos cadenciados construindo os fundamentos da religião. Segundo o Antropólogo Bourcier (2006), há registros históricos que comprovam a presença da dança ritual na vida do homem por pelo menos 14.000 anos. Sendo essa, o meio pelo qual ele se expressa, se comunica, se liga com a natureza e o espaço ao seu redor. Portanto, de importância sem igual o seu papel, principalmente aliado à religião. Numa relação música-dança, se estabelece a conexão homem-orixá, que o levará à uma possessão, cuja beleza e magnitude encanta a todos os presentes nas festas religiosas.
   

        IDENTIDADE, para o conceito antropológico, significa a manifestação de um mundo particular em que o eu está associado, tendo ligações comuns com o meio. Ou ainda, é o reconhecimento em que o individuo é próprio, conjunto de diversos carácteres que diferenciam e particularizam o individuo. A CULTURA NEGRA, no Brasil, passou por gigantes dificuldades e crescente preconceito, o que dificulta a sua aceitação no meio social extra-afrorreligioso, fazendo com que percebamos que as religiões negra não sejam aceitas como 'dignas' para os padrões cristãos vigentes na sociedade, ou mesmo valores descendentes do pensamento ultra-cristão dos séculos de outrora, como a não aceitação da alma do negro, ou ainda, o negro como objeto de posse.  Porém, ainda que submisso socialmente, a rica cultura africana se misturou intensamente à branca, as vezes, não possibilitando o destrinchar das misturas, indicando a grandiosidade das tradições. Por exemplo, a comida, a dança, os vocábulos, dentre outras. Mesmo que embranquecidas todas essas características pertinentes aos negros se fizeram e se fazem presentes na brasilidade.
        A música e a dança são, em suma, partes integrantes da religiosidade negra. Os movimentos, o modo como se coloca o corpo, a música, a intensidade ou mesmo o volume desta tem representações específicas onde o detalhe constrói a riqueza. As orações são entoadas em formas de cantigas, onde as tradições se fazem, de modo que a cultura e as lições mitológicas que explicam a ritualística. Cada cantiga é composta por melodias específicas que se repetem de acordo com o objetivo de cada uma. Por exemplo, o toque/melodia "Oiê" se faz, sempre para saudar cargos religiosos, os religiosos, as funções religiosas, exaltar os orixás, solicitar bênçãos e sabedorias, dentre outras funções. Sempre se dá da mesma forma, intensidade e melodia variando apenas a letra que se canta. Aliado a esta reza está a dança, há uma dança específica para cada melodia entoada, em que os passos são pouco espaçados, mas os ombros e os braços são as partes do corpo em evidência, já que o pé pouco se move. E, às vezes, é tao complexa a aliança música-Dança que há diversos movimentos específicos para cada melodia, visto que a letra orienta os passos e coreografia. 
        A dança é parte fundamental da formação da identidade da pessoa que faz parte da religião, aprende-se com o tempo e dedicação, como forma de aquisição por merecimento e experiência. Assim, faz parte da formação da identidade religiosa, visto que, teoricamente, quanto mais velho dentro das tradições, quanto mais viveu dentro das tradições, mais sabedoria e conhecimento se agrega e, logo, mais se aprende a dançar. Numa cadência de conhecimento que é tão rico que parece não acabar o aprendizado.



POR QUE SE DANÇA?

 “O mundo está dentro de nossas casas, nas diferentes localidades. Nosso cotidiano é perpassado pelas coisas do mundo” Fonseca (2010, p. 129) 


        A dança é a identidade, nas palavras de Confúcio e Bourcier (já citados), a aplicação da dança e música está associada a manifestação da fé desde os tempos remotos. O candomblé, a umbanda, e outras religiões chamam automaticamente, no êxtase da fé, o movimento do corpo, que acompanhado pela música se faz a dança. Já que os movimentos ritmados representam a arte complexa da dança.
       Porém, a dança ritmada no candomblé está relacionada de maneira coreografada e isso se faz para ensinar o corpo as características de determinados orixás. E mesmo de determinados fundamentos religiosos. Xangô, o orixá do fogo, da justiça, senhor dos trovões, por exemplo, não poderia ter como dança representativa movimentos lentos, doces, sutis. Como o orixá é a manifestação do fenômeno da natureza, tal qual o trovão, o fogo, o vulcão, ele é ágil, brusco, rei, forte e guerreiro. Sua dança (Alujá) vai acontecer com braços arqueados, como que segurando dois machados (oxês), com movimentos rápidos e compassados, sem perder a vaidade que lhe é própria.
      Muitos questionam a necessidade de ensinar o yaô a dançar, visto que, ele já entra em possessão de orixá, então acreditam que a dança deve se desenvolver automaticamente com o tempo. De fato, isso também ocorre, o processo de aprendizagem é constante, a coreografia se aprende vendo e fazendo. Mas, devemos lembrar que a dança é a manifestação do locus em que se vive. NÃO VIVEMOS NA ÁFRICA, portanto o movimento concreto próprio do povo africano e, logo, daquele orixá não se faz presente em nós. Aprendemos porque não possuímos a identidade própria do povo de origem. Por exemplo, aprendemos o Alujá, porque não possuímos as identidades, características e movimentos ritmados naturais do povo de Oyó (Terra de Xangô).
      De maneira geral, percebemos que a manifestação da fé se dá de maneira complexa para a tradição iorubana, mesmo a daomeana. Visto que, a formação constante da identidade e seu conjunto de características se lapidam com tempo e experiência com a música, a dança e a língua que são próprias da tradição de Ketu, de jeje ou de Angola. O movimento do corpo, o comportamento do corpo, o ritmo adquirido pelo corpo e a habilidade com a dança se faz com o tempo e a senilidade religiosa. IDADE É POSTO!



                                                                                                                                   TATTO BARROS