terça-feira, 19 de abril de 2016

E AGORA? ONDE?



EM QUE CASA DEVEMOS NOS INICIAR?


     
      O candomblé é uma das religiões mais fascinantes que existem, do ponto de vista iniciático, aos nos iniciarmos no 'mistério do mariô', a cada ano, obrigação e função (a labuta religiosa propriamente dita) o conhecimento aumenta, a aprendizagem se dá e a sabedoria é construída. A religião é uma congregação de segredos que são aprendidos e passados, de acordo com o merecimento e a participação no Espaço Religioso.
     A sabedoria é passada pela Oralidade e presença, valorizando assim os conhecimentos dos ancestrais e respeitando os dogmas e doutrinas que a tradição possui. Há, dessa forma, Casas Matrizes, que zelam pela sabedoria e conhecimento do Axé. Isto é, cada Casa de Candomblé tem, por obrigação estar perto intelectualmente e ritualisticamente dos fundamentos e ensinamentos das casas originais ( Casa Branca do Engenho Velho, Gantois e Afonjá).
      As Casas Matrizes, por meio de seus fundadores, teceram seus ideais e rituais, seguindo as cidades e tribos originais na África  (naquela época, que hoje já não existem mais). O conhecimento do Povo de Abeokutá, por exemplo, se destinou ao Gantois, fazendo com que esta casa seja referência nos Orixás que descendem desse lugar e no sistema ritualístico que era próprio dessa cidade na época.
     Quando uma Casa Descendente honra os fundamentos e aprendizados de sua Casa Matriz, ela simplesmente honra o Candomblé como um todo e evita que este morra, em pobreza intelectual, pois honrando a bandeira do axé, esta casa não criará um sistema próprio, evitando segmentações religiosas que podem culminar em facções cujo conhecimento se faz perdido.
      Nesse ponto de vista, a Internet e as tecnologias não cooperaram com a religião de tradição oral, pois criou verdades míticas e não reais, que são seguidas intensamente por casas que não tem orientação nenhuma e, nem tampouco, conhecimento mínimo obtido de suas casas matrizes. Itans, doutrinas e dogmas estão dispostos aos montes no mundo virtual, desvirtuando a religião e seus princípios da linha de sua verdade. Casas são abertas aos montes sem a mínima condição de propiciar conhecimento básico aos seus iniciados. 
      Em que casa devemos nos iniciar? A resposta é simples, porém deve ser acrescida de várias condições muito particulares. Devemos nos iniciar em uma casa que toque nosso coração, que nos enriqueça de conhecimento, pois, nas palavras de um Grande Babalorixá Pai Xáxa de Jagun, filho da Enciclopédia do Candomblé, a mais reverenciada e respeitada, Mãe Cidália de Iroko (que por sua vez, é filha da maior Yalorixá de todos os tempos, Mãe Menininha do Gantois):

CANDOMBLÉ SÓ É BOM E CERTO, SE FIZER SENTIDO!
SE NÃO FAZ SENTIDO, ESTÁ ERRADO!
O TEMPO DE IYAWO É PARA APRENDER TUDO, NO AFÃ DE SER UM EGBON MI DE CONHECIMENTO E PREPARADO.

      É constante, nas conversas de axé, verdadeiras aplicações que respeitam a oralidade, ouvirmos:  "Na minha tribo!" e isso é respeitar os fundamentos da família de axé que segue, respeitar a Origem! Afinal, se a origem não é importante, como valorizar a ancestralidade? Qual o motivo de chamar o nome dos personagens do passado? Basta pensarmos que qualquer um de nós depois de mortos, só gostaríamos de ser chamados para algo que concordamos! Certo?! Isso sim faz sentido. Nosso dever escolher Casas que nos ofertam conhecimento e respeito aos cultos Ancestrais. Escolher Babalorixás e Yalorixás que não são meras molduras de parede mas, referências de axé e pessoas respeitadas por todos, inclusive pelas Casas Matrizes, que são a fonte da religião. Muito frequentemente, ouvimos sacerdotes dizerem que nas suas casas fazem as regras que quiserem, ou ainda percebemos que Iniciam uma pessoa no Orixá, seguindo uma mesma receita de bolo. Isso empobrece e mata a religião aos poucos.
     Há que se saber o que reza, o que canta, a quem adora, quais os fundamentos e doutrinas da religião. Fora de tudo isso, são noites acordadas e dias gastos em vão. Religião é riqueza de detalhe, orientação e fundamento válido, para que as transformações pessoais e coletivas sejam feitas e a fé enriquecida!

    
TATTO BARROS

terça-feira, 22 de setembro de 2015

O DEUS QUE ADORAMOS



    Uma verdade religiosa só se dá quando é resultado de uma experiência subjetiva dentro de qualquer contexto religioso. Essa experiência religiosa deve ser dotada de uma verdade tão pessoal que apenas o ser experiente a compreende. Um instante de experiência vivido que apenas a pessoa pode se valer, não podendo este ser dividido com mais ninguém, a não ser servir como um parâmetro objetivo, como um alvo para outrem alcançar. Nesse contexto, devemos perceber que independente da nomenclatura, a função da religião é restabelecer a conexão do ser com o sagrado.
     Dentro das tradições iorubanas, Deus, o Criador de tudo, Senhor dos Senhores, é um ser tamanha elevação que, de maneira complexa, há uma rede labiríntica de acesso. Há algo de inacessível no criador de todos os seres, vendo de maneira externa à religião. Destarte, podemos perceber que a criação de entidade e seres, favorece a existência de agentes cooperadores da organização de todo o universo (Multiverso). Deus, ou Olódùmarè ou ainda Olórun, ou Olófin tem como agente os Orixás que, são responsáveis por toda a dinâmica da vida e suas mínimas estruturas.
     Assim, o Deus que cremos, acreditamos, adoramos e louvamos é o mesmo Deus de todas as outras religiões ou tradições, sem sofismas ou egocentrismo cultural, no que cerne a superioridade. É o mesmo Senhor, apenas chamado de nome diferente, louvado de maneira diferente das demais tradições. Oba N’la.
Em suma, percebe-se que o Orixá é a conexão do ser humano com a natureza e a pureza da Criação. Adoramos essas entidades que, abaixo da hierarquia Divina, nos banham de maternidade e paternidade, lições do bem viver, moral e ética, e alegrias.
     O que nos diferencia é que comemos, bebemos, abraçamos e tocamos nossos deuses, que se manifestam em nossos irmãos, de maneira a nos possibilitar a concretude da fé. E essa é a mágica da cultura africana, como um todo. A possibilidade. A visão. O tato, o toque. A lágrima e a satisfação de ver a fé em movimento, nos acalantando e segurando sempre que possível.




Tatto Barros

domingo, 30 de agosto de 2015

SOB UM OLHAR OBSERVADOR


     Há muito a visibilidade negra, apesar do preconceito iminente, vem sendo creditada na sociedade, de modo que o contato com as tradições vem crescendo. Isso é importante, faz-se cada vez mais necessário agregar a todos os indivíduos a riqueza e a cultura intrínseca à religiosidade ketu, jeje e Bantu.
     As tradições (de Ketu, de Angola ou Jeje) apesar de suas imensas diferenças possuem suas similaridades (Não querendo ser paradoxo, mas já o sendo). Dentro delas, o amor aos deuses se faz presente e são eles os representantes da Natureza e a manifestação dos sentimentos e sensações humanas. Ou melhor, que os seres humanos possuem. Afinal, por que não dizer que todo desejo de amor materno, de cuidar, de zelar, por exemplo, são sentimentos/atributos de Iemanjá? (Nome que, em iorubá, significa Mãe cujos filhos são peixes, ou simplesmente, Mãe dos Peixes). Ou ainda, como não dizê-lo que na sociedade bantu, Iemanjá possui suas similaridades com Mikaiá, e ainda, sob o mesmo ponto de vista, nas tradições Jeje, Azli.
     Obviamente, a mistura das tradições pode trazer suas compensações porém certamente, deletará a riqueza que cada uma pode apresentar, individualmente. Mas, quem determina o limite?
     Apenas na tradição Ketu, o Ritual Fúnebre (Axexê), invoca nas três línguas, fon/fongbé (Jeje), Bantu (Angola) e Iorubá (Ketu), cantigas para o advento da passagem. Apresentando sua característica, no Brasil, de juntar e mesmo reverenciar as demais nações. Entretanto como dito, afora toda reverência, a mistura das nações pode ser danosa para a riqueza e mesmo a fidelidade às tradições.
     A beleza do Candomblé está em apresentar para as pessoas, um deus que se encontra presente, que se preocupa, que abraça, acalanta e demonstra o amor de maneira física, como apenas esta tradição o pode fazer. Um deus que canta, dança, come e abraça. Evitando assim, toda a frieza que tradicionalmente, a sociedade nos impõe sobre a figura divina.
     Conhecer a Cultura dos Orixás é acima de tudo reconhecer a ligação que temos com os deuses e sentir de maneira física, espiritual e mentalmente toda conexão que temos com a Natureza e a parte dela em nós. Para isso, devemos identificar a fidelidade das diferentes casas às suas tradições. A mágica da religião se dá pela riqueza do conhecimento deixado pelos nossos Ancestrais que são chamados como testemunhas, cada vez que rezamos os Obis, Orobôs e Lobaças. Ora, se os chamamos, estamos os convidando para validar as lições aprendidas, para validar a fidelidade que temos ou tentamos ter a toda sabedoria deixada por eles a nós. Há que se ressaltar que cabe a cada família de Axé, buscar suas origens e ser fiel às suas matrizes, afinal, nossa religião não tem bíblia porém, um acervo muito maior em rezas, cantigas, preces e danças que deixam suas lições. Podemos viver todos os dias aprendendo estas lições e ainda assim, em uma vida seria impossível assimilar toda bagagem de conhecimento que o candomblé tem a nos ensinar.






TATTO BARROS 

quarta-feira, 15 de julho de 2015

QUESTÃO LINGUÍSTICA

As Baianas - Carybé


Segundo Vygotsky, um pensador pedagógico do início do século XX, o estabelecimento e a aquisição do conhecimento se dá de forma social, já que o homem é social por natureza, ou seja, se estabelece em comunhão. A vida religiosa dentro das Tradições de Ketu não foge à essa regra. A construção do eu e o papel a ser desempenhado dentro da comunidade se dá pela observação dos outros, na cópia das posturas e dizeres e assim, acontece o sucesso espiritual no agrado às Entidade louvadas e felicidade estabelecida por se tornar com o tempo modelo para aqueles que estão entrando na comunidade/religião.
O Sucesso espiritual acontece quando tecemos uma rede de conhecimento, em reverência àqueles que vieram antes de nós, sendo eles nossos mestres e exemplos. Toda essa gama de conhecimento está relacionada aos hábitos inerentes ao Candomblé Ketu, como a língua, a dança, as lendas (itan), vestimentas, posturas e etiquetas gerais.
A priori, o que observa-se com veemência ao entrarmos no ambiente religioso é a linguagem estabelecida, além das vestimentas diferenciadas. O Iorubá é a língua vigente, no qual se misturam palavras em português, como que soltas e  tatuadas na gramática religiosa. Um simples “- Oi” é respondido ou antecedido da expressão “- Motumbá” que logo se faz respondida por “- Motumbaxé , Motumbá”, criando um ambiente assim propicio para aquisição de uma segunda língua de maneira concomitante com os outros aspectos comportamentais referentes à religião.
Isso porque, todas as rezas e cânticos tradicionais se fazem nesse idioma, considerado sagrado e, logo, a forma pela qual os orixás se comunicarão ou mesmo ouvirão as súplicas e as adorações de seus fiéis. Com o tempo, o iniciante, Ìyàwó, vai desenvolvendo suas relações com a língua, por meio das cantigas e suas traduções, cujos mais velhos se deliciam em explicar e fazer o iniciado experienciar o néctar dos deuses em forma de conhecimento que é supervalorizado dentro das casas religiosas, afinal, conhecimento associado com tempo de iniciado significa posto, postura e sabedoria. Principalmente, para aqueles que souberam beber da fonte de seus mais velhos e com muita educação e respeito (rumbê), ouvir e assimilar toda a carga de informações que serão relevantes no futuro e, como uma corrente, passadas para os mais novos, não deixando a tradição morrer. Afinal, o candomblé não tem um livro sagrado que fomenta e regulamenta o rito. As leis e tradições são passadas de forma oral. O que cria ainda mais a mágica do segredo. E, é por isso que buscar informações na internet e comunidades virtuais, no afã de aprender ‘axé’ é o mesmo que buscar pães no hospital. Candomblé se aprende com presença, aliança, dedicação e merecimento.



ÈDÈ YORÙBÁ


O idioma Iorubá é tradicional, hoje, em algumas regiões da Nigéria, falado também em alguns locais subsaarianos, também Benin e Togo, e pelos religiosos de tradição Ketu/lucumi. Idioma tonal e apresentado no mesmo sistema que o português e o inglês, no tocante à gramática, o sistema SVO (Sujeito- Verbo – Objeto).

Possui as mesmas letras do alfabeto português, excetuando, C, Q, V, X e Z.  Com acréscimo das letras Gb (som de B, com estalo), E (som de É aberto), O (Som Ó aberto), S (som de X, CH).



A importância do idioma é tamanha, visto que, é por meio da boca que reza que as entidades são invocadas, que os Deuses dançam e que toda a religião se faz, a boca que reza é sagrada, portanto, aquele que porta a palavra deve ser tratado e, o é, com muito respeito e esmero. Ignorar a importância de estudar e se dedicar ao aprendizado do idioma é o mesmo que abdicar da compreensão de fazer o que faz e aprender o que faz e porque faz. 

Uma vez, um homem muito sábio me disse: "- Se não faz sentido, está errado. Candomblé tem que fazer sentido, menino!" 
Hoje eu digo a ele: A benção Pai!







 TATTO BARROS

segunda-feira, 8 de junho de 2015

A VIDA RELIGIOSA



     Talvez, o que há de diferente nas religiões afro brasileiras, em comparação com as famosas e conhecidas religiões do mundo, seja o resgate de si mesmo, ao qual cada um está exposto, a introspecção e o desejo suntuoso pelo bem-estar e estar-bem na vida física. Não há uma busca opulenta pelo outro mundo, pela pós-vida, os acontecimentos buscados são para agora, são necessidades imediatas, nesta existência, pois, ela encerra em si mesma toda glória ou esquecimento.
     A glória se dá pela memória dos que ficam, quando os feitos daqueles que já se foram são mais que considerados pela sociedade vigente. Assim, toda vez que for necessário louvar/saudar determinado orixá, também será feito pela invocação daqueles que a este foram iniciadas e, partiram para outro estágio da vida. Além do corpo físico.
     Está lembrança memorável se dará pela invocação do nome religioso que cada um angaria quando é iniciado nos "mistérios do mariô" (Màrìwò). Nas rezas do obi, por exemplo, onde os ancestrais são chamados para ouvir e mesmo inferir e transmitir a mensagem dos deuses. Os ancestrais louvados e chamados são as pessoas que, para o invocador, se fazem importantes, já que construíram um legado e foram para este, mais que professores.
     Já o esquecimento se dará para aqueles que não construíram um legado, não buscaram o enaltecimento do nome, da cultura e nada cultivaram ao outro, de jeito que não serão lembradas por qualquer ato. Ou mesmo se dará para aqueles que construíram suas vidas em caminhos falaciosos. Caminhos estes que se construíram na vergonha da falta de caráter e da mentira. 
     Obviamente, há lados bons e ruins da propagação da fé iorubana, principalmente. Visto que, a tradição jeje (djedje), por exemplo, conseguiu se manter mais fiel às origens do que as demais nações (ketu e angola) cuja propagação construiu a fama, isso porque, toda a expansão 'descontrolada', produziu casas religiosas que são afastadas inclusive ideologicamente de suas matrizes. Nas quais, o culto se perdeu, as tradições se perderam, a cultura se perdeu e, logo a religião se diferencia, de modo danoso para aqueles que buscam angariar o conhecimento e construir a sabedoria afrorreligiosa. 
      Para aqueles que buscam o vestíbulo às religiões africanas, há que se considerar o quão unidas estas se fazem com suas matrizes, que seja, por exemplo, o Axé Oxumarê, Axé Pilão de Prata, o Ilê Axé Opô Afonjá, o Axé Casa Branca ou ainda, o Axé Gantois. Isso porque, a religião estabelece vínculos com os ancestrais e apenas com esse vínculo estabelecido o conhecimento virá. O tempo vivido de religião implica em construção e lapidação da sabedoria, já que por meio da vivência que o conhecimento é transmitido.
      Há todo um sentimento de reserva e segredo nas tradições, devido aos processos históricos aos quais o povo negro foi submetido no decorrer da construção social e suas modificaçoes. Assim, apenas a fidelidade, confiança, tempo, estabelecimento de vínculos darão segurança para que os mestres ensinem os aprendizes.  Por fim, se construirá o laço familiar inerente à religião, com país, mães, filhos, sobrinhos de fé. Cuja hierarquia banha e protege os seus. A palavra de ordem para alcançar os degraus da sabedoria é dedicação, associada com merecimento.




Tatto Barros

quinta-feira, 4 de junho de 2015

RITUAL E SACRIFÍCIO




      Este blog já abordou o assunto "Sacrifício" mas, Mãe Stella de Oxóssi (Sacerdotisa do Ilê Axé Opô Afonjá) escreveu um artigo para o Jornal "A Tarde" de Salvador, como o faz quinzenalmente, cuja a riqueza é difícil de ignorar. Segue este Texto, para apreciação e enriquecimento cultural e religioso.
 
 
 
      "Este é o último artigo que comenta sobre o “corpo religioso” do candomblé, da maneira como ele é professado no terreiro/templo Ilê Axé Opô Afonjá, onde fui iniciada e me tornei iyalorixá. Já foram feitas observações sobre cosmogonia – origem do mundo segundo o povo yorubá; liturgia – cerimônias abertas ao público; dogmas – verdades reveladas pelos orixás, que são aceitas usando-se o critério da fé. Hoje o tema é ritual: cerimônias que se baseiam em mitos que foram sendo transmitidos pelos ancestrais. Nos rituais revivemos passagens importantes dos orixás aqui na Terra e, assim, conectamo-nos com o comportamento deles. Os rituais, através dos mitos, ensinam para nós os comportamentos que devem ser seguidos e os que devem ser evitados. Muitos desses rituais são repetidos em épocas específicas, pois têm que estar em conexão com os ciclos da natureza. É de fundamental importância que os sacerdotes busquem e adquiram esse conhecimento, pois só assim os rituais alcançam todo seu potencial.
      A grande polêmica que fazem com a religião dos orixás é o fato de em alguns de seus rituais animais serem sacrificados. Uma prática que existe desde quando o homem precisa alimentar-se. Sempre foram realizados por muitas religiões, mas que aos poucos foram deixando de existir em algumas. A pergunta é, então, por que o candomblé ainda faz o que, para muitos, é considerado uma barbaridade?
      A resposta é simples: essa religião tem uma profunda relação com o planeta Terra, tanto que suas danças são feitas com os pés totalmente plantados no chão, diferente do balé, que parece demonstrar que os bailarinos, dançando nas pontas dos pés, desejam alcançar o céu. Essa ligação com a terra não poderia excluir a necessidade que o homem tem de se alimentar para sobreviver. Oferecemos aos deuses tudo aquilo que nos mantém vivos e alegres: alimentos, flores, perfumes, água limpa e fresca. Tranquilizo os leitores dizendo que no dia em que os homens deixarem de ter na mesa galinha, galo, carneiro, porco, boi… naturalmente esses animais deixarão de ser ofertados aos deuses. Se um dia o sacrifício humano existiu foi porque as tribos se alimentavam de seus semelhantes. Se a desculpa para crítica de sacrifício de animais se deve ao fato de eles serem seres vivos, gostaria de lembrar que laranja, alface, couve também são seres vivos.
      Afinal, quando arrancamos uma raiz de inhame para que ela faça parte da nossa farta mesa de café da manhã, nem lembramos que sacrificamos um ser vivo. Neste caso é para nos servir de alimento, e quando arrancamos uma flor pelo simples prazer de curtir sua beleza? Gostaria, apenas, que as pessoas que criticam os nossos rituais refletissem sobre o que foi dito anteriormente, com o coração e a mente aber ta, e chegassem às suas próprias conclusões. Não é nosso interesse forçar alguém a crer em nossas verdades, mas é nossa obrigação fornecer subsídios para ajudar as pessoas a ampliarem o conhecimento de suas mentes, a fim de que seus corações possam ficar cada vez mais livres de preconceitos, o que faz com que eles se tornem mais purificados.
       Caso tudo o que falei ainda não tenha servido para que o sacrifício de animais no candomblé possa ser compreendido, quero lembrar que os animais de que o povo se alimenta no seu dia a dia são mortos em série, de maneira cruel, nos abatedouros. Os nossos animais são reverenciados desde que são escolhidos nas feiras livres, até o momento em que são oferecidos aos orixás, quando cobrimos seus olhos com folhas específicas de calma e cantamos a fim de diminuir o estresse que eles possam estar sentindo. Além disso, eles não são animais quaisquer, são escolhidos aqueles que o sacerdote consagrado para esta função percebe que já estão no momento de passar para outro estágio evolutivo. Não matamos o animal, damos a ele um novo nascimento, por isso cantamos: Bi ewe yeje para lala ie, Ògún pere pa = Demos-lhes um novo nascimento, você resistiu à prova, ultrapassou seguramente privações e sofrimentos, você não está morto, está vivo. Somente Ogun mata."
 
 
 
  MÃE STELLA 
 
 
 

terça-feira, 19 de maio de 2015

A DANÇA E A IDENTIDADE



      A mágica da tradição iorubana se dá já no primeiro contato com a religião, quando a música e a dança cumprem seu papel extansiante de elevar o ser humano a um outro patamar de consciência e percepção. 

" Mostrem-me como dança um povo e eu lhes direi se sua civilização está doente ou tem saúde" (Confúcio)

      A dança e a música são características fundamentais e basilares da tradição afro-brasileira, as orações, manifestações, personalidades são todas mostradas por meio dos gestos cadenciados construindo os fundamentos da religião. Segundo o Antropólogo Bourcier (2006), há registros históricos que comprovam a presença da dança ritual na vida do homem por pelo menos 14.000 anos. Sendo essa, o meio pelo qual ele se expressa, se comunica, se liga com a natureza e o espaço ao seu redor. Portanto, de importância sem igual o seu papel, principalmente aliado à religião. Numa relação música-dança, se estabelece a conexão homem-orixá, que o levará à uma possessão, cuja beleza e magnitude encanta a todos os presentes nas festas religiosas.
   

        IDENTIDADE, para o conceito antropológico, significa a manifestação de um mundo particular em que o eu está associado, tendo ligações comuns com o meio. Ou ainda, é o reconhecimento em que o individuo é próprio, conjunto de diversos carácteres que diferenciam e particularizam o individuo. A CULTURA NEGRA, no Brasil, passou por gigantes dificuldades e crescente preconceito, o que dificulta a sua aceitação no meio social extra-afrorreligioso, fazendo com que percebamos que as religiões negra não sejam aceitas como 'dignas' para os padrões cristãos vigentes na sociedade, ou mesmo valores descendentes do pensamento ultra-cristão dos séculos de outrora, como a não aceitação da alma do negro, ou ainda, o negro como objeto de posse.  Porém, ainda que submisso socialmente, a rica cultura africana se misturou intensamente à branca, as vezes, não possibilitando o destrinchar das misturas, indicando a grandiosidade das tradições. Por exemplo, a comida, a dança, os vocábulos, dentre outras. Mesmo que embranquecidas todas essas características pertinentes aos negros se fizeram e se fazem presentes na brasilidade.
        A música e a dança são, em suma, partes integrantes da religiosidade negra. Os movimentos, o modo como se coloca o corpo, a música, a intensidade ou mesmo o volume desta tem representações específicas onde o detalhe constrói a riqueza. As orações são entoadas em formas de cantigas, onde as tradições se fazem, de modo que a cultura e as lições mitológicas que explicam a ritualística. Cada cantiga é composta por melodias específicas que se repetem de acordo com o objetivo de cada uma. Por exemplo, o toque/melodia "Oiê" se faz, sempre para saudar cargos religiosos, os religiosos, as funções religiosas, exaltar os orixás, solicitar bênçãos e sabedorias, dentre outras funções. Sempre se dá da mesma forma, intensidade e melodia variando apenas a letra que se canta. Aliado a esta reza está a dança, há uma dança específica para cada melodia entoada, em que os passos são pouco espaçados, mas os ombros e os braços são as partes do corpo em evidência, já que o pé pouco se move. E, às vezes, é tao complexa a aliança música-Dança que há diversos movimentos específicos para cada melodia, visto que a letra orienta os passos e coreografia. 
        A dança é parte fundamental da formação da identidade da pessoa que faz parte da religião, aprende-se com o tempo e dedicação, como forma de aquisição por merecimento e experiência. Assim, faz parte da formação da identidade religiosa, visto que, teoricamente, quanto mais velho dentro das tradições, quanto mais viveu dentro das tradições, mais sabedoria e conhecimento se agrega e, logo, mais se aprende a dançar. Numa cadência de conhecimento que é tão rico que parece não acabar o aprendizado.



POR QUE SE DANÇA?

 “O mundo está dentro de nossas casas, nas diferentes localidades. Nosso cotidiano é perpassado pelas coisas do mundo” Fonseca (2010, p. 129) 


        A dança é a identidade, nas palavras de Confúcio e Bourcier (já citados), a aplicação da dança e música está associada a manifestação da fé desde os tempos remotos. O candomblé, a umbanda, e outras religiões chamam automaticamente, no êxtase da fé, o movimento do corpo, que acompanhado pela música se faz a dança. Já que os movimentos ritmados representam a arte complexa da dança.
       Porém, a dança ritmada no candomblé está relacionada de maneira coreografada e isso se faz para ensinar o corpo as características de determinados orixás. E mesmo de determinados fundamentos religiosos. Xangô, o orixá do fogo, da justiça, senhor dos trovões, por exemplo, não poderia ter como dança representativa movimentos lentos, doces, sutis. Como o orixá é a manifestação do fenômeno da natureza, tal qual o trovão, o fogo, o vulcão, ele é ágil, brusco, rei, forte e guerreiro. Sua dança (Alujá) vai acontecer com braços arqueados, como que segurando dois machados (oxês), com movimentos rápidos e compassados, sem perder a vaidade que lhe é própria.
      Muitos questionam a necessidade de ensinar o yaô a dançar, visto que, ele já entra em possessão de orixá, então acreditam que a dança deve se desenvolver automaticamente com o tempo. De fato, isso também ocorre, o processo de aprendizagem é constante, a coreografia se aprende vendo e fazendo. Mas, devemos lembrar que a dança é a manifestação do locus em que se vive. NÃO VIVEMOS NA ÁFRICA, portanto o movimento concreto próprio do povo africano e, logo, daquele orixá não se faz presente em nós. Aprendemos porque não possuímos a identidade própria do povo de origem. Por exemplo, aprendemos o Alujá, porque não possuímos as identidades, características e movimentos ritmados naturais do povo de Oyó (Terra de Xangô).
      De maneira geral, percebemos que a manifestação da fé se dá de maneira complexa para a tradição iorubana, mesmo a daomeana. Visto que, a formação constante da identidade e seu conjunto de características se lapidam com tempo e experiência com a música, a dança e a língua que são próprias da tradição de Ketu, de jeje ou de Angola. O movimento do corpo, o comportamento do corpo, o ritmo adquirido pelo corpo e a habilidade com a dança se faz com o tempo e a senilidade religiosa. IDADE É POSTO!



                                                                                                                                   TATTO BARROS