domingo, 28 de agosto de 2016

O PRECONCEITO ÀS RELIGIÕES AFRICANAS

 REFLEXOS HISTÓRICOS E ANTROPOLÓGICOS


Certa vez Voltaire disse “Preconceito é opinião sem conhecimento”. Isso é indiscutível. Toda a gama de ações contra o povo de religião afro-brasileira não é mera ação religiosa, ou imbuída de uma fé, apenas. Se o fosse, já seria criminosa e imperdoável. Entretanto, trata-se do preconceito racial velado. Ação da sociedade como um todo, contra os negros e sua ancestralidade africana.
Exatamente assim. Trata-se de uma herança cultural, impregnada no cerne da sociedade branca, cristã e elitista. Percebemos assim que o que é do negro não é digno se comparado com o que pertence ao branco. Se uma pessoa se considera cristã, católica, judia, ou qualquer outra denominação, seja no trabalho, na família ou nas escolas, esta não sofre os olhares preconceituosos que um declarante de religião de matriz africana. Toda a visão torpe do pensamento vitimista deve ser abandonado para perceber que os seguidores do Candomblé e da Umbanda, em suma, por vezes mascaram sua fé e tradição em nome de uma visibilidade mais agradável aos olhos da sociedade.
No trabalho, muitos escondem suas tradições. Isso é um fato, inquestionável e claro. Evidente.
Se lançarmos um olhar sobre o passado, conseguimos entender os motivos. Os pretos, escravizados, deveriam esconder suas tradições, nas vestes e filosofias cristãs, impostas socialmente. Aquele que não se convertesse morria, sofria no tronco, não que, o então objeto tivesse alma, sobretudo para o agrado do capital, do senhorzinho, da burguesia e do patriarcado.
Portanto, o preconceito religioso atribuído às religiões de origem africana, são, em suma, formas veladas do preconceito racial, historicamente, antropologicamente, filosoficamente intrínsecos nas palavras e ações dos brasileiros. Thoreau disse, sabiamente, “nunca é tarde para abrimos mão de nossos preconceitos”, mesmo porque a origem deles, por vezes beira a animalidade ou o ridículo.
O preconceito religioso vem assolando a humanidade há milênios, o preconceito aos membros das tradições afro-brasileiras, pode começar uma guerra, mesmo que silenciosa. Pois, as batalhas e mortes, já vem acontecendo, há muito, de maneira elíptica, e poucos estão percebendo.

Tatto Barros

segunda-feira, 11 de julho de 2016

O MITO DA CONSCIÊNCIA NEGRA


DESCONSTRUÇÃO DO APRENDIZADO DA HISTÓRIA e DESDOIRO DO PRECONCEITO




    O vigésimo dia do mês de novembro de todos os anos, a partir de 2011, é nomeado como feriado (em alguns municípios, não na totalidade deles) de Dia Nacional da Consciência Negra. Sob o respaldo da lei nº 12.519, instituída. A data faz uma alusão à morte do líder do Quilombo dos Palmares, Zumbi, que foi morto de maneira cruel pelos brancos. Morte exemplificadora, com a cabeça cortada e salgada, levada ao Governador Melo de Castro (1695). A cabeça de Zumbi fora exposta no Pátio do Carmo (Recife- PE) com o falo na boca de modo intimidar o povo negro e desmistificar as questões de imortalidade impressas à figura do grande líder (Carneiro, 1966).
      Acontece que, no decorrer da história, os Negros tiveram seus papéis determinados pelos brancos e as regras sociais impostas fizeram com que a cultura, as tradições e mesmo a identidade deles fossem deturpadas e mesmo desconfiguradas. Basta lembrar que nos Portos Africanos, quando embarcariam rumo à Nova Terra, passavam pelo ritual do esquecimento. Porém, os escravizados aqui chegados trouxeram consigo muito mais do que a mera lembrança do que eram e continuaram sendo, trouxeram junto a si a maestria de suas histórias em suas mentes pois, os sonhos, os desejos, os aprendizados natais e suas essências eram tudo que lhes havia sobrado, assim construíram a sua história numa terra cujos donos sofreriam com igual intensidade, se não no corpo, na alma.
     A escola brasileira ainda conta história das benesses sociais empregadas por brancos aos negros, como a heroína Princesa Isabel, que os libertara numa ação de bondade. Quando na verdade, houve pressões feitas pela necessidade Industrial da Inglaterra, entre outros fatores geopolíticos que ficam suprimidos pelo ensino elíptico da verdade e dos fatos. O negro no Brasil viveu e, ainda vive, em situações eufêmicas, como se a sociedade como um todo fosse miscigenada e aqui fosse o paraíso racial. O que de fato se trata de uma falácia, que mesmo os americanos, segundo Petrônio Rodrigues em sua recente publicação para a Revista de História da USP, em “A visita de um Afro-Americano ao Paraíso Racial” (2006. p. 161-181), caíram no decorrer das décadas entre 1910 e 1960, quando rui o conceito do ‘paraíso’ no bloqueio de vistos a serem concedidos aos afro-americanos interessados no ingresso ao país.
     É em meio a toda essa estrutura de tentativa de embranquecimento do país, que a cultura negra exige espaço e igualdade, alcançando a voz necessária para iniciar o processo moroso e doloroso da transformação social. Desta forma, entre os anos 1800 e 1900 nasce o Candomblé, religiosidades e tradições negras começam a ganhar forma, a capoeira, as danças, as comidas começam a ganhar espaço na Nação e o sentimento de nacionalidade parece tomar conta da ‘vontade’ dos descendentes de escravizados que ficaram no país. Há que se lembrar que em nenhum momento o negro esteve passivo diante das situações impostas pela sociedade europeizada. O próprio nascimento dos quilombos é o reflexo da não aceitação do que lhes foram imposto, é o reflexo da necessidade do resgate da humanidade e acima de tudo da rejeição à condição de objeto.


     A formatação da Lei 10.639/03 tem como ideal fazer com que as escolas anexem ao seu currículo o ensino da História e Cultura Afro-brasileiras e Africanas, no afã de desconstruir o preconceito em sua base. Promulgada e indexada na Lei de Diretrizes e Bases que guia todas as escolas do país e é o parâmetro de currículo e avaliação, entretanto a aplicabilidade ocorre de modo deficitário e, porque não dizer (?!), falacioso. Visto que os assuntos pertinentes são poucos ou nada trabalhados, dado que as escolas têm sua trajetória e origem (e membros) cristã-normativa, o que impede que o trato às culturas e tradições negras sejam trabalhadas, porquanto que foi essa mesma tradição que possibilitou e justificou a existência da escravidão e ausência de alma do ‘negro-objeto’ e, por conseguinte, trata-se de uma estrutura maculada pelas ações religiosas no pretérito recente.
     Entender que por si só a lei não pode descontruir o racismo e as questões negras vigentes é o primeiro passo para construir a preocupação com o que está se tornando caso militar no país. É a falta da educação que mata jovens negros, que trucida fiéis de tradição religiosa negra (do Candomblé, Umbanda, Omolokô, Jurema, tambores entre outras denominações), é a falta de educação e ética que ainda justifica a existência das diversas formas de preconceito no Brasil.  “As ações afirmativas não acabam com o racismo nem com o sistema público de ensino, como diziam seus opositores. Mas, proporcionam igualdade de oportunidade”, essas são as palavras do Jornalista Carlos Medeiros, em sua palestra no Café Filosófico (19/08/2015), que expressam de fato a importância da informação. É por meio do conhecimento e da oportunidade de acesso a ele que a sociedade se transformará. A discriminação e preconceito vigentes se desconstruirão quando a ética nascer entre os homens e ela só se dará com a erudição e o acesso a informação e educação. E apenas nas mãos do poder público, onde os alunos não são clientes, mas em suma, estudantes. Apenas.
     Enquanto esse processo de ensino real e alimentado pela vontade de transformar não se concretizar, os números de vítimas de violências, seja pelos civis, religiosos, policiais, entre outros, contra a população negra tendem a aumentar, isso porque ainda são esses os socialmente marginalizados. Posto que, aqui (no Brasil) o preconceito e a discriminação são velados.



REFERÊNCIAS NO TEXTO:
CARNEIRO, EdisonO Quilombo dos Palmares, Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 3a ed., 1966.
DOMINGUES, Petrônio. A visita de um afro-americano ao paraíso racial. Revista de História/USP 155, 2006
MEDEIROS, Carlos. Raça e Racismo no Brasil Contemporâneo. CPFL Cultura: SP. 2015Acesso em < http://www.cpflcultura.com.br/2015/08/19/raca-e-racismo-no-brasil-contemporaneo-com-carlos-medeiros-integra/ >

terça-feira, 28 de junho de 2016

CARTA ABERTA A SRA PATRICIA ABRAVANEL E DEMAIS BRASILEIROS INTOLERANTES




Em países muito místicos (...), o povo deixa de trabalhar porque fica tão místico, que deixa de fazer as coisas certas para poder chegar num objetivo. Em países mais racionais, que têm uma fé em deus, mas que acredita no esforço, no suor, no trabalho, no você 'se portar', ter um casamento e ter que cuidar dele, esses países vão mais pra frente. Então, um exemplo: a África é muito mística, e a gente vê as consequências, e os EUA é mais racional, protestante, onde acredita no suor. Então, eu acho que a gente tem que avaliar nossa crença através dos frutos que elas nos trazem",

Leia mais: http://extra.globo.com/tv-e-lazer/patricia-abravanel-fala-de-misticismo-africano-causa-nova-polemica-nas-redes-sociais-19597977.html#ixzz4Ct8ZSv00



            Há muito, uma pequena parcela da população brasileira vem lutando para que as barreiras da intolerância religiosa e sua carga negativa na sociedade se rompam. Porém, desconstruir um pensamento estruturado numa herança cultural com normatividade cristã e racista é um processo moroso e requer várias ações para a constituição de uma lapidação e ruptura de um pensamento dominante. A sra, Patrícia Abravanel, há pouco, manifestou sua opinião acerca das problemáticas africanas, atribuindo todos os seus malefícios as questões religiosas, porém o que não sabe é que, durante séculos, o CONTINENTE Africano, pois não é um país, nem tampouco homogêneo, sofreu invasões e domínio dos cristãos, que sugaram tudo e mais um pouco que o continente possuía e, não obstante, inclusive seu povo e culturas.

            Os ataques hostis são muito frequentes em nosso país, devido ao Ódio e a Intolerância Religiosa, entretanto são poucos aqueles que repercutem na mídia, como o caso da Justiça Federal do Rio de Janeiro  em 2014, que desclassificava as religiões de matriz africana como religiões de fato, ou mesmo, o caso da Menina Kailane de 11 anos que ganhou notoriedade por ter sido apedrejada em 2015, por estar trajada nos confortes da tradição candomblecista (ela não se ‘portava’ de maneira correta?). Ou ainda o caso, no Rio de Janeiro, no ano de 2014, do estudante que foi impedido de entrar na escola, devido as paramentas religiosas que deveriam ser utilizadas por ele por ser uma época ritual. Neste caso, inclusive a mãe do garoto, Sra. Rita de Cassia Araújo, recebeu o pedido de desculpas formais do prefeito da cidade.

            Preconceito Religioso, Intolerância religiosa, são monstros alimentados diariamente e pessoas morrem, pessoas perdem seus empregos, pessoas perdem sua dignidade e mesmo identidades. A ponto de terem, muitas vezes, de omitir sua fé.

            Diferente de seu pensamento, Sra. Patrícia Abravanel e demais correligionários (que pensam de maneira semelhante), o objetivo das pessoas (porque somos todos diferentes um do outro) não se restringe às conquistas financeiras, conhecemos pessoas muito bem-sucedidas que foram e são extremamente infelizes, que se suicidaram, ou que doaram tudo e foram viver em monastérios, ou ainda que surtaram... Não devemos avaliar o ser humano pelo que ele tem, mas pelo que ele é, em sua integralidade.  Outra questão de sua fala é associar fé com racionalidade, dois termos muito complicados de serem trabalhados, para uma pessoa com limitação intelectual. No caso a fé americana é Fé, em suas palavras, e a fé africana é misticismo! Interessante colocação, porém, falaciosa. Eu poderia analisar muitas outras questões desse discurso, entretanto o tempo é escasso.

            Não nos tornemos antropólogos de botequim, cabe a nós, todos os dias análises críticas acerca do que falamos e transmitimos afinal, de alguma forma, todos somos formadores de opinião, principalmente aqueles que possuem acessos às mídias gerais que dispersam aquilo que dizemos e fazemos. Quando falamos de fé, o assunto complica ainda mais, pois mexe com a questão mais intrínseca aos seres, que é a identidade. A África não é um continente homogêneo, lá há cristãos, muçulmanos, tribos das mais diferentes possíveis e religiões mais variadas também. Os problemas ATUAIS africanos, todos, são oriundos da dominação cristã. Pois, em nome do Cristo, matou-se, roubou-se e escravizou-se. A miséria daquele local se deu e se dá, Sra. Abravanel, graças à sua religião, não à minha. Assim, todas as vezes, que abrir a boca para falar da religião de matriz africana, lembre-se que a estrutura do preconceito religioso, se respalda na estrutura do preconceito racial.



Tatto Barros





terça-feira, 19 de abril de 2016

E AGORA? ONDE?



EM QUE CASA DEVEMOS NOS INICIAR?


     
      O candomblé é uma das religiões mais fascinantes que existem, do ponto de vista iniciático, aos nos iniciarmos no 'mistério do mariô', a cada ano, obrigação e função (a labuta religiosa propriamente dita) o conhecimento aumenta, a aprendizagem se dá e a sabedoria é construída. A religião é uma congregação de segredos que são aprendidos e passados, de acordo com o merecimento e a participação no Espaço Religioso.
     A sabedoria é passada pela Oralidade e presença, valorizando assim os conhecimentos dos ancestrais e respeitando os dogmas e doutrinas que a tradição possui. Há, dessa forma, Casas Matrizes, que zelam pela sabedoria e conhecimento do Axé. Isto é, cada Casa de Candomblé tem, por obrigação estar perto intelectualmente e ritualisticamente dos fundamentos e ensinamentos das casas originais ( Casa Branca do Engenho Velho, Gantois e Afonjá).
      As Casas Matrizes, por meio de seus fundadores, teceram seus ideais e rituais, seguindo as cidades e tribos originais na África  (naquela época, que hoje já não existem mais). O conhecimento do Povo de Abeokutá, por exemplo, se destinou ao Gantois, fazendo com que esta casa seja referência nos Orixás que descendem desse lugar e no sistema ritualístico que era próprio dessa cidade na época.
     Quando uma Casa Descendente honra os fundamentos e aprendizados de sua Casa Matriz, ela simplesmente honra o Candomblé como um todo e evita que este morra, em pobreza intelectual, pois honrando a bandeira do axé, esta casa não criará um sistema próprio, evitando segmentações religiosas que podem culminar em facções cujo conhecimento se faz perdido.
      Nesse ponto de vista, a Internet e as tecnologias não cooperaram com a religião de tradição oral, pois criou verdades míticas e não reais, que são seguidas intensamente por casas que não tem orientação nenhuma e, nem tampouco, conhecimento mínimo obtido de suas casas matrizes. Itans, doutrinas e dogmas estão dispostos aos montes no mundo virtual, desvirtuando a religião e seus princípios da linha de sua verdade. Casas são abertas aos montes sem a mínima condição de propiciar conhecimento básico aos seus iniciados. 
      Em que casa devemos nos iniciar? A resposta é simples, porém deve ser acrescida de várias condições muito particulares. Devemos nos iniciar em uma casa que toque nosso coração, que nos enriqueça de conhecimento, pois, nas palavras de um Grande Babalorixá Pai Xáxa de Jagun, filho da Enciclopédia do Candomblé, a mais reverenciada e respeitada, Mãe Cidália de Iroko (que por sua vez, é filha da maior Yalorixá de todos os tempos, Mãe Menininha do Gantois):

CANDOMBLÉ SÓ É BOM E CERTO, SE FIZER SENTIDO!
SE NÃO FAZ SENTIDO, ESTÁ ERRADO!
O TEMPO DE IYAWO É PARA APRENDER TUDO, NO AFÃ DE SER UM EGBON MI DE CONHECIMENTO E PREPARADO.

      É constante, nas conversas de axé, verdadeiras aplicações que respeitam a oralidade, ouvirmos:  "Na minha tribo!" e isso é respeitar os fundamentos da família de axé que segue, respeitar a Origem! Afinal, se a origem não é importante, como valorizar a ancestralidade? Qual o motivo de chamar o nome dos personagens do passado? Basta pensarmos que qualquer um de nós depois de mortos, só gostaríamos de ser chamados para algo que concordamos! Certo?! Isso sim faz sentido. Nosso dever escolher Casas que nos ofertam conhecimento e respeito aos cultos Ancestrais. Escolher Babalorixás e Yalorixás que não são meras molduras de parede mas, referências de axé e pessoas respeitadas por todos, inclusive pelas Casas Matrizes, que são a fonte da religião. Muito frequentemente, ouvimos sacerdotes dizerem que nas suas casas fazem as regras que quiserem, ou ainda percebemos que Iniciam uma pessoa no Orixá, seguindo uma mesma receita de bolo. Isso empobrece e mata a religião aos poucos.
     Há que se saber o que reza, o que canta, a quem adora, quais os fundamentos e doutrinas da religião. Fora de tudo isso, são noites acordadas e dias gastos em vão. Religião é riqueza de detalhe, orientação e fundamento válido, para que as transformações pessoais e coletivas sejam feitas e a fé enriquecida!

    
TATTO BARROS

terça-feira, 22 de setembro de 2015

O DEUS QUE ADORAMOS



    Uma verdade religiosa só se dá quando é resultado de uma experiência subjetiva dentro de qualquer contexto religioso. Essa experiência religiosa deve ser dotada de uma verdade tão pessoal que apenas o ser experiente a compreende. Um instante de experiência vivido que apenas a pessoa pode se valer, não podendo este ser dividido com mais ninguém, a não ser servir como um parâmetro objetivo, como um alvo para outrem alcançar. Nesse contexto, devemos perceber que independente da nomenclatura, a função da religião é restabelecer a conexão do ser com o sagrado.
     Dentro das tradições iorubanas, Deus, o Criador de tudo, Senhor dos Senhores, é um ser tamanha elevação que, de maneira complexa, há uma rede labiríntica de acesso. Há algo de inacessível no criador de todos os seres, vendo de maneira externa à religião. Destarte, podemos perceber que a criação de entidade e seres, favorece a existência de agentes cooperadores da organização de todo o universo (Multiverso). Deus, ou Olódùmarè ou ainda Olórun, ou Olófin tem como agente os Orixás que, são responsáveis por toda a dinâmica da vida e suas mínimas estruturas.
     Assim, o Deus que cremos, acreditamos, adoramos e louvamos é o mesmo Deus de todas as outras religiões ou tradições, sem sofismas ou egocentrismo cultural, no que cerne a superioridade. É o mesmo Senhor, apenas chamado de nome diferente, louvado de maneira diferente das demais tradições. Oba N’la.
Em suma, percebe-se que o Orixá é a conexão do ser humano com a natureza e a pureza da Criação. Adoramos essas entidades que, abaixo da hierarquia Divina, nos banham de maternidade e paternidade, lições do bem viver, moral e ética, e alegrias.
     O que nos diferencia é que comemos, bebemos, abraçamos e tocamos nossos deuses, que se manifestam em nossos irmãos, de maneira a nos possibilitar a concretude da fé. E essa é a mágica da cultura africana, como um todo. A possibilidade. A visão. O tato, o toque. A lágrima e a satisfação de ver a fé em movimento, nos acalantando e segurando sempre que possível.




Tatto Barros

domingo, 30 de agosto de 2015

SOB UM OLHAR OBSERVADOR


     Há muito a visibilidade negra, apesar do preconceito iminente, vem sendo creditada na sociedade, de modo que o contato com as tradições vem crescendo. Isso é importante, faz-se cada vez mais necessário agregar a todos os indivíduos a riqueza e a cultura intrínseca à religiosidade ketu, jeje e Bantu.
     As tradições (de Ketu, de Angola ou Jeje) apesar de suas imensas diferenças possuem suas similaridades (Não querendo ser paradoxo, mas já o sendo). Dentro delas, o amor aos deuses se faz presente e são eles os representantes da Natureza e a manifestação dos sentimentos e sensações humanas. Ou melhor, que os seres humanos possuem. Afinal, por que não dizer que todo desejo de amor materno, de cuidar, de zelar, por exemplo, são sentimentos/atributos de Iemanjá? (Nome que, em iorubá, significa Mãe cujos filhos são peixes, ou simplesmente, Mãe dos Peixes). Ou ainda, como não dizê-lo que na sociedade bantu, Iemanjá possui suas similaridades com Mikaiá, e ainda, sob o mesmo ponto de vista, nas tradições Jeje, Azli.
     Obviamente, a mistura das tradições pode trazer suas compensações porém certamente, deletará a riqueza que cada uma pode apresentar, individualmente. Mas, quem determina o limite?
     Apenas na tradição Ketu, o Ritual Fúnebre (Axexê), invoca nas três línguas, fon/fongbé (Jeje), Bantu (Angola) e Iorubá (Ketu), cantigas para o advento da passagem. Apresentando sua característica, no Brasil, de juntar e mesmo reverenciar as demais nações. Entretanto como dito, afora toda reverência, a mistura das nações pode ser danosa para a riqueza e mesmo a fidelidade às tradições.
     A beleza do Candomblé está em apresentar para as pessoas, um deus que se encontra presente, que se preocupa, que abraça, acalanta e demonstra o amor de maneira física, como apenas esta tradição o pode fazer. Um deus que canta, dança, come e abraça. Evitando assim, toda a frieza que tradicionalmente, a sociedade nos impõe sobre a figura divina.
     Conhecer a Cultura dos Orixás é acima de tudo reconhecer a ligação que temos com os deuses e sentir de maneira física, espiritual e mentalmente toda conexão que temos com a Natureza e a parte dela em nós. Para isso, devemos identificar a fidelidade das diferentes casas às suas tradições. A mágica da religião se dá pela riqueza do conhecimento deixado pelos nossos Ancestrais que são chamados como testemunhas, cada vez que rezamos os Obis, Orobôs e Lobaças. Ora, se os chamamos, estamos os convidando para validar as lições aprendidas, para validar a fidelidade que temos ou tentamos ter a toda sabedoria deixada por eles a nós. Há que se ressaltar que cabe a cada família de Axé, buscar suas origens e ser fiel às suas matrizes, afinal, nossa religião não tem bíblia porém, um acervo muito maior em rezas, cantigas, preces e danças que deixam suas lições. Podemos viver todos os dias aprendendo estas lições e ainda assim, em uma vida seria impossível assimilar toda bagagem de conhecimento que o candomblé tem a nos ensinar.






TATTO BARROS 

quarta-feira, 15 de julho de 2015

QUESTÃO LINGUÍSTICA

As Baianas - Carybé


Segundo Vygotsky, um pensador pedagógico do início do século XX, o estabelecimento e a aquisição do conhecimento se dá de forma social, já que o homem é social por natureza, ou seja, se estabelece em comunhão. A vida religiosa dentro das Tradições de Ketu não foge à essa regra. A construção do eu e o papel a ser desempenhado dentro da comunidade se dá pela observação dos outros, na cópia das posturas e dizeres e assim, acontece o sucesso espiritual no agrado às Entidade louvadas e felicidade estabelecida por se tornar com o tempo modelo para aqueles que estão entrando na comunidade/religião.
O Sucesso espiritual acontece quando tecemos uma rede de conhecimento, em reverência àqueles que vieram antes de nós, sendo eles nossos mestres e exemplos. Toda essa gama de conhecimento está relacionada aos hábitos inerentes ao Candomblé Ketu, como a língua, a dança, as lendas (itan), vestimentas, posturas e etiquetas gerais.
A priori, o que observa-se com veemência ao entrarmos no ambiente religioso é a linguagem estabelecida, além das vestimentas diferenciadas. O Iorubá é a língua vigente, no qual se misturam palavras em português, como que soltas e  tatuadas na gramática religiosa. Um simples “- Oi” é respondido ou antecedido da expressão “- Motumbá” que logo se faz respondida por “- Motumbaxé , Motumbá”, criando um ambiente assim propicio para aquisição de uma segunda língua de maneira concomitante com os outros aspectos comportamentais referentes à religião.
Isso porque, todas as rezas e cânticos tradicionais se fazem nesse idioma, considerado sagrado e, logo, a forma pela qual os orixás se comunicarão ou mesmo ouvirão as súplicas e as adorações de seus fiéis. Com o tempo, o iniciante, Ìyàwó, vai desenvolvendo suas relações com a língua, por meio das cantigas e suas traduções, cujos mais velhos se deliciam em explicar e fazer o iniciado experienciar o néctar dos deuses em forma de conhecimento que é supervalorizado dentro das casas religiosas, afinal, conhecimento associado com tempo de iniciado significa posto, postura e sabedoria. Principalmente, para aqueles que souberam beber da fonte de seus mais velhos e com muita educação e respeito (rumbê), ouvir e assimilar toda a carga de informações que serão relevantes no futuro e, como uma corrente, passadas para os mais novos, não deixando a tradição morrer. Afinal, o candomblé não tem um livro sagrado que fomenta e regulamenta o rito. As leis e tradições são passadas de forma oral. O que cria ainda mais a mágica do segredo. E, é por isso que buscar informações na internet e comunidades virtuais, no afã de aprender ‘axé’ é o mesmo que buscar pães no hospital. Candomblé se aprende com presença, aliança, dedicação e merecimento.



ÈDÈ YORÙBÁ


O idioma Iorubá é tradicional, hoje, em algumas regiões da Nigéria, falado também em alguns locais subsaarianos, também Benin e Togo, e pelos religiosos de tradição Ketu/lucumi. Idioma tonal e apresentado no mesmo sistema que o português e o inglês, no tocante à gramática, o sistema SVO (Sujeito- Verbo – Objeto).

Possui as mesmas letras do alfabeto português, excetuando, C, Q, V, X e Z.  Com acréscimo das letras Gb (som de B, com estalo), E (som de É aberto), O (Som Ó aberto), S (som de X, CH).



A importância do idioma é tamanha, visto que, é por meio da boca que reza que as entidades são invocadas, que os Deuses dançam e que toda a religião se faz, a boca que reza é sagrada, portanto, aquele que porta a palavra deve ser tratado e, o é, com muito respeito e esmero. Ignorar a importância de estudar e se dedicar ao aprendizado do idioma é o mesmo que abdicar da compreensão de fazer o que faz e aprender o que faz e porque faz. 

Uma vez, um homem muito sábio me disse: "- Se não faz sentido, está errado. Candomblé tem que fazer sentido, menino!" 
Hoje eu digo a ele: A benção Pai!







 TATTO BARROS