segunda-feira, 9 de março de 2015

A BARROQUINHA II

    

        
       Como vimos no texto anterior, a formação da Barroquinha se deu claramente pela união de três princesas: Iya Adetá, Iya Akalá e Iya Nassô que com Obatossi (Iya Marcelina) formaram o primeiro Terreiro de candomblé. O nome "terreiro" foi empregado porque expressa o local inicial em que os cultos eram realizados, arredores (terreno) da Igreja da Barroquinha. Como bem sabemos, "terreiro" é um sinônimo de "terreno", principalmente na região nordeste do Brasil.
    Algumas curiosidades ficam ressaltantes antes de entrarmos nos detalhes  da formação do candomblé. Segundo Iya Senhora, Iyalorisa do Ilê Axé Opô Afonjá em 1910, para o historiador Vivaldo da Costa Lima,  Iya Nassô teria um título de axé (algo como um cargo religioso) que era o de Iya Akalá, sendo portando apenas um segundo nome de Iya Nassô e não uma terceira pessoa na fundação do candomblé. Havia portanto duas princesas e Iya Marcelina.
       A junção das princesas ocorreu pelas idéias iniciais de dois babalawos: Baba Assiká e Bangboshê Obitikô. Segundo alguns dados históricos, Bangboshê Obitikô tinha como nome civil Rodolfo Martins de Andrade, era um traficante e comerciante de escravos, também era africano. Babá Assiká ou Axipá, para alguns estudiosos se trata, na verdade de ancestral divinizado (egun), sendo Assiká um egun de Odé ou Ogun, trazido nessa época por Bamboshê junto com os preceitos dos eguns: Aburô de Xangô, Kayodé de Odé e ainda, Ajadi, Adirô e Akessan (Esu do Mercado), lendo a obra de Pierre Verger é essa versão que temos. Ainda em outros conceitos históricos, talvez os mais prováveis, devido dados precisos dizem que Baba Assiká e Baba Obitikô, eram babalawos africanos que trouxeram o Opele Ifá para o Brasil e ainda, alguns escravos, no afã de formar uma sociedade religiosa com aqueles que aqui se estabeleceram, eram assim, altos oficiais do Culto de Osossiy (Oxosse/Odé). Em Juana Elbein e para o Antropólogo Renato Silveira, Baba Assiká teria sido o Orientador Espiritual de todos, inclusive de Banboshê Obitikô.
       Com a junção do conhecimento de todos os presentes, Babás e Iyas, Marcelina Obatossi com sua Iyalorixá fundam o primeio Ilê, na Barroquinha, onde mais tarde seriam expulsos pelas autoridades politicas e militares. Forçando a mudança destes para o Engenho Velho da Federação e a fundação de um outro ilê, que existe forte e resistente até os dias de hoje.
       Devemos considerar ainda que, segundo Verger, a mãe de Iya Nassô, foi uma escrava liberta/alforriada que retornou à África, deu à luz e sua filha vem ao Brasil no afã de trazer o "axé", incentivada pelos babalawos. Porém, sua chegada está relacionada também com a vinda da Familia Real Arô, que cultuava Osossiy em Ketu. Foram aprisionados pelos Daomeanos e trazidos pelos brancos ao Brasil. Entre os 200 (contagem superficial) escravos vindos, Otampê Ojarô se fez presente, recebeu o nome de Maria do Rosário Francisca Régis e foi uma das responsáveis pela criação do ILÊ AXÉ AIRÁ INTILÉ, nome religioso da casa de Candomblé da Barroquinha. Iya Otampê Ojarô, funda depois sua própria casa. O Terreiro do Alaketu, Ilê Axé Mariolajé. Os religiosos acreditam piamente que Iya Otampê Ojarô fora alforriada pelo próprio Oxumarê, em pessoa!
       Ainda na obra de Verger outro nome se faz presente. Iyalussô Danadana, uma descendente da familia de Ketu, que ajudou a introduzir aqui no Brasil o culto de Osossiy.  Por causa de todas essas famílias de Ketu e Arô o culto a Odé / Osossiy se faz o mais famoso no Brasil. Ainda que, quase extinto na Africa.


POR QUE O PRIMEIRO TERREIRO É DEDICADO AO ORISA AIRÁ?



       Iya Nassô era uma das pessoas mais ilustres da comunidade de Oyó na Africa, então a casa louvava o Orisa Sango, específico da Terra de Oyó e Airá, para alguns qualidade de Xangô, para outros orixá distinto, apesar de ter ligações. Assim, numa espécie de convenção a casa passa ter Airá como patrono.  Iya Nassô leva sua filha Iya Obatossi para África, no afã de buscar axés, minerais e vegetais que aqui não existiam. Quando Iya Obatossi retorna traz consigo mais pessoas ilustres, porém Iya Nassô não retorna mais. Então, depois de expulsos da Barroquinha. Vão fundar a casa de Candomblé: ILÊ AXÉ IYA NASSÔ OKÁ. Em homenagem à sua Iyalorixá. A Casa Branca do Engenho Velho. Que tem como Patrono Xangô e dono do chão, Oxosse.

Tatto Barros



Referências:

Silveira, Renato da. Candomblé da Barroquinha. Ed. Maianga, 2007
Cacciatore, Olga Gudolle. Dicionário de Cultos afro-brasileiros
Elbein, Juana. Os Nago e a Morte. Ed. Vozes, 2002



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