segunda-feira, 11 de maio de 2015

A INICIAÇÃO - Ligação entre o homem e o Orixá


(Carybé)

A religiosidade se faz de maneira diferente em cada ser humano. A diferença entre os religiosos do candomblé e os demais é que, para aqueles (os do candomblé), a conquista do Sagrado e das bênçãos divinas se dá a todos não pela religião ou pela crença, mas pelo caráter que banha cada cabeça. É partindo desse ponto de vista que, numa questão sociológica vemos a diferença entre estes religiosos, da tradição africana, e os religiosos da tradição cristã e branca, onde nesta o domínio, o sofrimento, a penitência e a necessidade de se findar historicamente esteve relacionada com a precisão de impor seus pensamentos espirituais e criar a teoria de que apenas por ela se dava a salvação.
Não é assim que ocorre no candomblé. Para o Povo de Santo, não nascemos amaldiçoados, não somos banhados pelo pecado, não há inferno e não há juízo final. Ainda para os descendentes iorubanos não há demônio, lúcifer, diabo ou qualquer coisa afim. Dentro da tradição da cosmogonia iorubana, percebe-se que a escolha entre o certo e o errado, cabe a cada um, em sua individualidade e subjetividade, conceituada como Ori, não havendo influências de um ser superpoderoso e inimigo de Deus.

Assim, a tradição se faz.


INICIAÇÃO AO ORIXÁ

Popularmente chamado de Fazer o Santo, por isso a denominação povo de santo, a iniciação é pura manifestação da vontade de uma pessoa que conheceu a religião e ali encontrou seu espaço e sua necessidade de prática da fé. Quando conversamos com os iniciados, eles revelam que a feitura foi uma necessidade espiritual, outros revelam que foi por amor e há outros que revelam estar cumprindo um destino.
A relação entre destino e a necessidade da realização da feitura é uma questão complexa de ser abordada pois, esta geralmente se faz por questões de caminhos de destino, em que cada pessoa, independente se estão ou não na religião, nasceu sobre a influência, a este caminho do destino dá-se o nome de Odú. Assim, num sistema quase que matemático, a primeira vista, para o leigo, a vida da pessoa está traçada e ali está escrita sua necessidade de cumprimento ou não para com a vida religiosa, seja esta onde for.
Aqueles que dizem que a feitura de santo está relacionada com a necessidade espiritual, foram as pessoas que conseguiram alcançar alguma benesse, por exemplo, saúde, quando se iniciaram para o Orixá. (Obs. Esta abordagem está bem ampla, não especifica, com o tempo detalharemos algumas coisas, que não devem ser desconsideradas) 


FUNDAMENTOS DA INICIAÇÃO ESPIRITUAL

Os fundamentos dos diferentes rituais são mais que conhecidos pela humanidade, em todos os tempos, antropólogos da atualidade afirmam categoricamente que tudo aquilo que permeia o ser humano e tem considerável importância, passa por rituais, ou melhor, implicam em rituais de passagem. Por exemplo, o nascimento, o primeiro banho, a primeira roupa, a formação universitária (com o evento da formatura, entrega de canudos, etc). Ou seja, uma sistematização para a marcação da importância de determinada situação.
Acontece que o ritual de iniciação, o vestibular da cultura nagô, está relacionado, de forma intensamente considerável com religar a pessoa, por diversas formas ao passado, com seus ancestrais, com a África, com os Orixás. É uma passagem que será um marco para aquilo que caberá ao iniciado fazer a todo instante de sua vida, reconexão com passado e com o interno. A expansão nesse caso, caberá por acontecer para trás e para dentro e o ápice se dá quando o neófito é capaz de perceber o porquê dessas ações.


PARA TRÁS E PARA DENTRO

“a maior parte das provas iniciáticas implicam de maneira mais ou menos transparente, uma morte ritual se seguiria uma ressureição ou novo nascimento. O momento central de toda a iniciação vem representado pela cerimônia que simboliza a morte do neófito e sua volta ao mundo dos vivos. Mas, o que volta a vida é um homem novo, assumindo um modo de ser distinto...” (Mircea Eliade. 1958, p.12).
Para entender o processo de iniciação das tradições iorubanas, precisamos a priori, resgatar os conceitos de Orixás. Estes são os Ancestrais Divinizados, que podem ser classificados em dois grandes grupos: Aqueles que viveram a condição humana e aqueles que nasceram divinizados. Portanto, quando se classifica a tradição como uma necessidade de resgate do passado, uma reconexão com aqueles que já estiveram aqui, se explica a necessidade constante do voltar e olhar para trás pois, ali se encontram as fontes de bênçãos e sabedorias para os crentes da religião afro-brasileira.
Por que para dentro? Simplesmente porque o processo ocorre por internalização física e emocional. De maneira complexa que a tradição e os segredos impeçam que seja abordado, ocorre a internalização do axé, palavra que em ioruba expressa, entre outras coisas, força. Quando ocorre a iniciação do neófito, o rito de passagem em que ele deixa de ser um abiã e passa a ser um Ìyàwó, este tem o dever de internalizar todas as lições e a se adaptar com algumas expressões da língua estrangeira que até então o era estranha. Aprende a rezar, aprende postura, aprende todas as regras que lhe são cabíveis para se tornar um bom iniciado, aprendendo com os seus erros e com o exemplo de seus irmãos mais velhos (Egbon).
                                                     


A VIDA DO ÌYÀWÓ  / A VIDA RELIGIOSA


                A palavra iorubana Ìyàwó tem como tradução a palavra Esposa, depois da feitura de suas obrigações religiosas caberá a este zelar pelo santo com o qual casou, aquele ao qual foi apresentado, aprendendo assim tudo que lhe for possível para cumprir  sua aliança.
                Há diversas críticas para serem apontadas às pessoas que fazem parte da religião hoje, porém estas são muito pequenas perto do brilho e da grandeza que a cultura negra tem a acrescentar no mundo. Infelizmente, hoje se perde muito com o silêncio dos mais antigos, o que é tremenda covardia e falta de amor para com a permanência das tradições. Em contrapartida, há aqueles que estão na religião mas, não fazem parte dela, o que significa que, são cruéis pois, suas presenças, em quaisquer que sejam as religiões são danosas. Isso porque, criam e vendem ilusões, sujam o nome das tradições com pseudo-sabedoria, deturbam dos preceitos e enojam os mais velhos, fazendo-os deixar de ensinar àqueles que amam a religião.
                Numa visão bem mais profunda, podemos dizer que o Candomblé não é apenas uma religião, mais do que isso é uma cultura, uma filosofia e uma tradição em que nos abençoamos e reconectamos com o sagrado. Os deuses nos abençoam com suas presenças, dançam e contam suas sagas e assim se faz a magnitude. A valorização do mais velho é mais que perceptível, já que nem na altura física destes, os mais jovens (não de idade civil, mas de idade religiosa) devem permanecer. Cabem a eles se prostrarem aos mais velhos em sinal de respeito, ainda com sinais de humildade e respeito às tradições cabe a eles se deitarem no chão (expressão conhecida como bater cabeça). Toda essa mágica se dá de maneira muito mais aprofundada e explicada, que ficaríamos páginas e páginas analisando.


Prox: Orixás, Ori, Odu!


 Ìwà (pèlé) nìkàn l’ó sòro o
Caráter (reto) é tudo que há!

OBS: Não sou douto em Iorubá, não falo o idioma, as palavras que pertencem a este são escritas da forma mais ‘aportuguesada’ possível para facilitar a leitura. Há blogs que ensinam o ioruba, a grafia coerente e tudo mais porém este não tem essa função!


TATTO BARROS

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