Não se pode exigir que as pessoas sejam capazes de enxergar esse momento como Sagrado e, como tal, digno de toda a proteção do Estado e da Humanidade. O sacrifício animal é olhado, principalmente para os cristãos, como algo relacionado às malignidades e a desumanidade, já que a vida ali é extraída, para eles, com objetivo apenas de alimentar um sagrado que não atinge a benignidade na sua visão. Ou seja, quando o Deus de Abraão pede é divino, quando o Orixá, deus africano pede, demoníaco. Mostrando assim, a anencefalia cultural vigente em nossa sociedade.
"Depois faça um altar para o Senhor, o seu Deus, no topo desta elevação. Ofereça o segundo novilho em holocausto com a madeira do poste sagrado que você irá cortar" (Juízes 6:26)
"Se não tiver recursos para oferecer uma ovelha, trará pela culpa do seu pecado duas rolinhas ou dois pombinhos ao Senhor: um como oferta pelo pecado e o outro como holocausto. (Lev 5:7)
Há, nas passagens bíblicas, seguidas pelos Judeus, Cristãos e mesmo pelos muçulmanos, que apontam para a necessidade do sacrifício, superado ou não pelos tempos. Mas, a visão dessas religiões diante do sacrifício em nada acrescentam para o Candomblé e religiões africanistas, que vieram muito antes da chamada organização religiosa em si. O sacrifício, palavra que remete a Sacro Ofício, trabalho sagrado, consiste na reparação e oferta à natureza de tudo aquilo que ela nos fornece. A estrutura teológica do candomblé e religiões anexas se dá de maneira muito mais complexa do que parece.
“(...) os Pretos divididos em Nações e com instrumentos próprios de cada huma danção(...)”
Essa passagem consta numa carta de José da Cunha Grã Ataíde de Mello, o conde de Povollide, para o Rei de Portugal em 1780. Pode-se facilmente perceber que o povo negro tem suas divisões religiosas e complexidades que os diferenciam e juntam na mesma proporção e a dança os une. Em Luis Nicolau Parés (1960-70) se pode destacar também a preocupação do povo negro para com "sustentabilidade da vida neste mundo". Assim, a oferta à natureza cumpre seu papel, pois, cabe a ela o reequilíbrio e a reconexão dos seres presentes com o sagrado energético, os orixás são os símbolos prioritários das forças da natureza que se manifestam com danças e músicas. Sendo o alimento um dos laços estabelecidos com a humanidade pois, através deste nos mantemos vivos então, é por meio deste que o sagrado se faz em nossa existência.
PARA QUE O SACRIFÍCIO?
A imolação dos animais, oblação, é feita no afã de energizar, dar vida à uma energia sobrenatural, objetivando fazê-la presente na terra. Em Os Nagô e a Morte, de Juana Elbein, lê-se que o sangue contem todos os elementos necessários para a manutenção da vida.
A principal crítica da manutenção das ritualísticas está associada com a necessidade de, assim como os cristãos, abolir a prática por motivo de evolução social, porém vem à mente perguntas como:
- Já aboliu os alimentos de origem animal de sua mesa?
- Come Ovos? Usa peles ou Couro?
- Bebe leite? Come queijos?
- Vai em churrascarias? Come em qualquer restaurante?
- Frango? Peixe? Boi? Carnes Exóticas?
Se a resposta para qualquer dos questionamentos acima for SIM. Falar em oposição ao sacrifício animal é pura Hipocrisia, mostrando mais uma vez aquilo que é digno do ser humano: O preconceito enraizado, enfaixado e maquiado contra o negro e suas tradições. Criticar a oblação enquanto está com o estômago cheio de comidas de origem animal é a mais completa falta de bom senso e intelectualidade que o humano pode atingir.
Ainda assim, restarão perguntas que são eficientes caso as leis passem a ser vigor social, quando houver (Se houver!) proibição do Ofício Animal dentro das tradições africanas devido aos clamores sociais (dos cristãos e anexos). Haverá também o fechamento de empresas que ofertam/abastecem o mercado com carnes? Daí entram outros fatores, os econômicos, que doerão no bolso, mesmo daqueles que clamam pela Liberdade Animal.
"A filosofia do candomblé não é uma filosofia bárbara,e sim um pensamento sutil
que ainda não foi decifrado"
(Bastide, 1978).
ANIMAIS e FATORES RELIGIOSOS
Os animais que serão ofertados aos deuses devem, em suma, compor àqueles que são servidos às mesas. Porque nada dele deve ser dispensado, tudo aquilo que vem do animal deve ser ofertado à sociedade para o consumo: a pele, a carne, os ossos, etc. Uma vez que haja o desperdício se ofendem as leis sagradas da religião. É por isso que os animais em extinção, ou silvestres não devem ser sacrificados, uma vez que não compõe o paladar da comunidade ou se farão ausentes na natureza, o que também ofende o sagrado.
A definição de partes sagradas e uso delas não devem ser aqui escritas, em respeito às tradições. Mas, a valorização da vida do animal se dá em todo o instante, não há uma animalização do culto, ou mesmo culto ao sofrimento do ser, em todo o momento a dignidade das vidas é tida como valor primeiro. Dará, espiritualmente, força para toda comunidade e isso será representado quando todos comerem a carne, matéria física e representativa do axé!
Óbvio, que falar de sacrifício é uma questão complicada, há aqui milhares de fatores que deixei de apresentar, que mais para frente poderemos abordar.
"(...) O sacrifício de animais nos terreiros dá-se numa forma milenar de cultura que
não separa o divino, o humano e o natural nem mesmo no sofrimento. No sacrifício
há uma única pessoalidade em metamorfose e renascimento. Por estarem congregados
numa unidade, o sacrifício é um momento especial de fusão de destinos e
renascimentos em uma unidade simultaneamente animal, humana e divina. O
sacrifício só ocorre na medida e quando não há a recusa das três partes que se
entregam ao acontecimento cósmico. As acuradas sensibilidades desenvolvidas na
religião para o cuidado do animal não podem ser substituídas por técnicas
veterinárias, porque aquelas são mais antigas, sensíveis, mais sofisticadas e
sobretudo, abertas a insondáveis dimensões cósmicas (...)"
José Carlos dos Anjos - Prof. UFRGS
As palavras do Professor Universitário José Carlos dos Anjos, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, vem neste momento delicado de tentativas de aplicação de Leis contra os negros e suas tradições, abrilhantar a causa e estender à sociedade um manto de luz que aclara a mentalidade conturbada e escurecida da população, que ainda habita as cavernas de citadas por Platão. Ir contra a ritualística é ir contra milênios de tradição e alimentar o preconceito contra a cultura negra e suas tradições. Desrespeito histórico e antropológico.
TATTO BARROS

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