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domingo, 1 de março de 2015

A BARROQUINHA


foto de: http://www.mundoeducacao.com/historiadobrasil/as-irmandades-leigas.htm

Iya Adetá, Iya Akalá, Iya Nassô, Babá Obitikô e Babá Assiká! Esses são os cinco nomes que, de forma obrigatória, estudamos e vivenciamos ao entrar para as tradições ketu. Isso porque, a ancestralidade é o quesito elementar dos aspectos religiosos ligados à África. Vivenciamos os nomes, chamamos por todos aqueles que vieram antes de nós, sendo eles importantes para as tradições. As pessoas que se fizeram importantes para o Axé, depois de mortas, ainda são vivenciadas, numa prova de que, para os religiosos, a morte não é um fim, apenas uma mudança do Estado da Consciência (ou plano), portanto, para sempre os nomes comporão as orações do candomblé.
Algumas pesquisas divergem entre si sobre a identidade e mesmo sobre a origem fatídica da religião. Mas, de modo geral, podemos dizer que, já nessa época (séc.XVIII), como sempre foi, os negros cultuavam seus ancestrais divinizados – os Orixás, de forma individual, assim Iya Adetá, Iya Akalá e Iya Nassô resolveram se juntar com Obatossi, de nome civil, Marcelina de Jesus (filha de santo de Iya Nassô, alguns dizem que era prima de sangue também) e, cada uma com seus ancestrais resolveram fundar um ‘culto’ em conjunto, onde estabeleceriam como adorariam e as hierarquias. Óbvio que, a junção dessas mulheres se deu graças à dois babalaôs (pais do segredo) Bangboshê Obitikô e Babá Assiká.
Babalaôs são homens que se iniciaram no culto de Ifá, onde aprendem desde criança, por isso está ligado às tradições familiares, os segredo dos Odus (marcas do destino) e seus desdobramentos sob as visões da vida, dos orixás e das tradições africanas.
A Bahia, nesta época (Final do Séc. XVIII) vivia um grande ‘boom’ econômico e então recebia muitos navios e povos de diferentes locais, devido o tráfico negreiro ilegal e as trocas comerciais, principalmente Salvador. O Estado também vivia uma diferenciação, o surgimento dos negros livres e alforriados que, de alguma forma, ascendiam financeiramente (mesmo que de maneira modesta, claro).

O ponto culminante que propiciou o surgimento do candomblé, reunião de cultos, da forma que conhecemos hoje está relacionado com a Igreja Católica da Barroquinha em Salvador, hoje não existe mais essa igreja, no local há um centro histórico. Dentro dos cultos católicos o surgimento das irmandades se fez presente e importante na sociedade e ganhou muito mais notoriedade quando o Conde do Arcos (que era o Governador-geral vigente) se tornou membro de honra, levando assim, outros a buscarem ingresso na Irmandade dos Martírios e entre as mulheres Irmandade dos Rosário dos Pretos. Onde inclusive as negras se faziam presentes. Assim, nos arredores da Barroquinha (terreno dos fundos), Iya Nassô e sua filha Obatossi, Iya Akalá e Iya Adetá originam o culto aos ancestrais, pois passaram colocar os assentamentos de seus orixás juntos, formando um culto semelhante ao atual candomblé.

Tatto Barros


Fonte:       Gaiaku Luiza. Carvalho, Marcos de. Pallas, 2006
                
      

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

MÃE ÁFRICA: Uma Breve Introdução


   Para, antes de tudo, entendermos o desenvolvimento das tradições africanas no Brasil, devemos lançar olhares sobre a vivência dos povos que foram trazidos para este país, na condição da escravidão. Para tanto, há a necessidade de entender, antropologicamente, historicamente e culturalmente os costumes (tradições) ali desenvolvidas há milênios.
          Para entender qualquer tradição "nova", aos nossos olhos, devemos, sobretudo, nos purificar das concepções pre-estabelecidas, pois, o sistema em que vivemos nunca foi e nunca será padrão de nada. A arrogância do ser humano formou as brutalidades com relação às supremacias de crenças e tradições, assim como castigou povos e dizimou populações. Isso tudo para defender seus princípios (ou psedo-principios), nem que fosse as custas de vidas e sangue!




A RELIGIÃO FAMILIAR


      Entendendo religião como um conjunto de crenças que, numa determinada estrutura, reconecta o ser humano ao Sagrado, uma origem espiritual, podemos considerar que esta se dava de maneira familiar (antes de 1500 DC), ou ainda de maneira coletiva em povoados e municípios. Assim, essas pessoas louvavam o Sagrado de maneira muito particular.
        A religião iorubá, exemplo, louvava em suas terras os Ancestrais Divinizados, pessoas que se tornaram deuses, aos quais rendiam homenagens e mesmo satisfações! Em termos gerais, chamaremos esses seres louvados de Orixás, mas essa definição é academicamente restrita.
       A cidade de Oshogbo é, exemplificando, uma cidade onde o Orixá Oxum é louvado anualmente em festivais que existem até os dias de hoje.






             A cidade Ondo, é o local onde Ogun é venerado e louvado pelos habitantes, ja a cidade de Oyó, Xangô é o centro de todas as atenções. Esses são orixas, mundialmente conhecidos, aqui no Brasil todas pessoas já ouviram um destes nomes pelo menos uma vez na vida. Isso quer dizer que, todas as pessoas que nascem nesses povoados aprendem sobre os Ancestrais que lhes pertencem, são a eles consagrados e pertencem a essa cadeia de união, que gera laço e troca de forças espirituais (Axé) que alimenta a saúde, longevidade, felicidade e prosperidade de cada um. A lingua, dialeto, é outro fator que diferencia esses povos, cada um tem costumes diferenciados, apesar de haver algumas unidades em seus mais básicos conceitos.



ENTENDENDO DEUS-PAI-CRIADOR


             As religiões africanas (iorubanas, fon, bantu) não são politeístas, apesar de muito isso demonstrar. Todos os adeptos, sempre foram monoteístas, pois o criador de toda a essência, a força motriz de tudo é chamada de ELEDUMARE (O Senhor dos Destinos) ou OLORUN (O Senhor dos Céus*). Sendo assim, encontra em si características similares com a visão dos cristãos, onde há um Principio Criador, que a tudo dá Ânimo e, também há os seus intercessores.
             A função dos Intercessores, seres abaixo do Criador, que dEle dependem, por suas determinações e Destinos, é estabelecer em nós a vontade, a vida e a fé.

            Assim, cada elemento e situação que o Criador faz acontecer, emprega um de seus filhos (criações primeiras, originais) no domínio. À Ogun, coube o domínio sobre as conquistas, também sobre o ferro, lutas, batalhas, guerras, agricultura**; à  Oxalá a criação do homem, o ar, a respiração, o sopro de vida, a pureza; Iemanjá o domínio das águas, senhora das cabeças e mãe da humanidade. Aqui estou sendo muito superficial, obviamente a complexidade é muito maior que qualquer dessas especificações.

              Em termos gerais, podemos dizer que, quando trazidos ao Brasil, as pessoas desses povoados se misturam e faz com que aconteça aqui um ecumenismo que não ocorria na África. As pessoas de diferentes povoados e diferentes Ancestrais passam a louvar o conjunto espiritual que unifica a todos. O Ancestral Divino de cada um será aqui, louvado por todos, por toda a comunidade, passando a ser Ancestral de todos os membros dessa sociedade. Criando assim, laços familiares (vínculos espirituais)





* OLORUN - Senhor do Orun. Orun, aqui traduzido como Céus, na verdade se trata de um Mundo Espiritual, paralelo ao nosso. Que corresponde ao nosso e, de certa forma, similar.


** AGRICULTURA, na verdade pertence a Okô mas, seu culto no Brasil é menos conhecido, o que vez com que Ogun se tornasse o senhor da Agricultura devido suas Passagens Mitológicas (Itans) com Okô.



OBS: Em breve, traçaremos reflexões bem mais profundas, navegaremos para além da superficialidade.